A NARRATIVA DA EMIGRAÇÃO BRASILEIRA



A narrativa da emigração brasileira

em jornais comunitários no exterior: estudo do Brazilian Times

Maria Jandyra Cavalcanti Cunha

Universidade de Brasília

Resumo:

O estudo se propõe analisar a construção da narrativa jornalística sobre a emigração de brasileiros, que é reconhecido como fenômeno social a partir dos anos 1980. O objeto do estudo é o jornal comunitário, entendido neste trabalho como um jornal editado e dirigido para membros de uma mesma comunidade étnica minoritária, não necessariamente com contigüidade geográfica. O corpus da pesquisa foi retirado do Brazilian Times, um jornal publicado na Nova Inglaterra, E.U.A., desde 1988.

Palavras-chave: história do presente, jornal comunitário, comunidade transplantada, emigração

Resumen:

Esta ponencia se propone analizar la construcción de la narrativa periodística sobre la emigración de brasileños, que se reconoce como fenómeno social a partir de los años 1980. El objeto de estudio es el periódico comunitario, aquí entendido como el periódico editado y dirigido a los miembros de una misma comunidad étnica minoritaria, no necesariamente unida por contigüidad geográfica. El corpus de la pesquisa fue sacado del Brazilian Times, un periódico publicado en Nueva Inglaterra, EE.UU., desde 1988.

Palabras-llave: historia del presente, periódico comunitario, comunidad transplantada, emigración

Abstract:

This study aims at analysing the construction of the journalistic narrative about the emigration of Brazilians considered as a social phenomenon from the years 1980. The object of the study is the community newspaper, understood in this paper as a newspaper planned to and edited by members of the same minority ethnical community, not necessarily linked by geographical continuity. The research corpus was extracted from the Brazilian Times, a newspaper published in New England, U.S.A. since 1988.

Key-words: history of the present, community newspaper, transplanted community, emigration

Introdução

Este trabalho é parte do projeto de pesquisa intitulado A narrativa da migração nos jornais comunitários brasileiros no exterior[1] e seu objetivo é analisar a construção da narrativa jornalística sobre a emigração de brasileiros, ou seja, sua movimentação para fixação no exterior.

O objeto do estudo é o jornal comunitário – limitado neste trabalho a um jornal editado e dirigido para membros de uma mesma comunidade transplantada. Por comunidade transplantada, refiro-me àquela comunidade que, sendo originalmente formada por imigrantes e seus descendentes, ainda cultiva sua língua e seus costumes [2]. No seio dessa comunidade existe uma expectativa de superação dos impasses causados pelas ameaças de perda de identidade, fragmentação da experiência e muitos outros fenômenos diruptivos causados pela migração.

Os jornais de comunidades transplantadas também são conhecidos, como ‘jornais étnicos’, assim como o são as rádios que têm sua programação dirigida para essas comunidades[3]. Outra denominação usada é ‘jornal de colônia’ [4]. Entretanto, ambos os termos carregam uma conotação negativa e nenhum deles dá conta da tipificação de comunidade transplantada, que é, em verdade, uma comunidade ‘híbrida’ - um termo que tomo emprestado da obra de Homi Babha [5]. Em uma comunidade híbrida, a cultura é conformada dinamicamente por um processo contínuo de negociações com ambivalências, antagonismos, conflitos, dissonâncias e disjunções de significações. No próprio conceito de comunidade já está embutida uma alternativa para a tensão entre liberdade e coação existente na sociedade contemporânea [6].

Neste estudo fundamento-me na teoria da antropologia da notícia desenvolvida pelo pesquisador da narrativa jornalística Luiz Gonzaga Motta[7]. Levando em conta que a antropologia se dedica à compreensão dos sistemas significativos no interior de uma determinada sociedade, busca-se compreender a análise jornalística como uma atividade produtora de sentidos, formadora e estruturadora do pensamento contemporâneo em todas as dimensões. Nesse sentido, a teoria da antropologia da notícia se encontra com a história do presente ou história imediata, caracterizada pelo historiador Robert Darnton como uma série de estudos extensivos de fatos dramáticos relativamente curtos, narrados como contos nas páginas dos jornais [8]. Este é o caso deste estudo sobre a emigração brasileira para os Estados Unidos, um acontecimento na história presente do país.

Também estou levando em consideração o estudo do cientista político Luis Felipe Miguel[9] sobre a representatividade na mídia. Inserindo a representação da realidade pela mídia na esfera pública discursiva, Miguel enfatiza a esfera pública como um espaço de conflito entre grupos com interesses contraditórios, no qual se desenrola uma parte significativa da luta pela hegemonia política. Afasta-se a visão habermasiana de ‘situação de fala ideal’[10], na qual não se reputa a desigualdade nos turnos de fala e não se dá margem à opressão e manipulação existentes no espaço discursivo público. Não sendo neutra nem objetiva, a representação da realidade pela mídia dá visibilidade a determinadas perspectivas sobre da sociedade contemporânea. No caso dos jornais comunitários de brasileiros no exterior, a representação da realidade da sociedade - tanto da hospedeira como da sociedade da qual se demite a comunidade – ganha um largo espaço a perspectiva do emigrante brasileiro (imigrante no país estrangeiro).

A pergunta que norteia a pesquisa é a seguinte: ‘De que maneira o relato objetivo do jornal comunitário de brasileiros no exterior se constitui em acontecimentos narrativos que conformam, na história do presente, um capítulo sobre o fenômeno social da emigração?’. Para respondê-la, analiso jornais comunitários de brasileiros nos Estados Unidos da América e, em particular, aqueles que são produzidos na Costa Leste, que é, em termos demográficos, a zona mais densa da população brasileira naquele país. Neste trabalho, em particular, enfoco especificamente o jornal Brazilian Times, um jornal publicado na Nova Inglaterra, EE. UU. A, desde 1988.

A narrativa histórica

De acordo com os dados da Organização das Nações Unidas, a população migrante no mundo passou de 76 para 175 milhões entre 1960 e 2000. Segundo os registros da Organização Internacional para a Migração, o contingente de migrantes internacionais atingiu 2,9% da população mundial em 2003 [11]. Os números de 2005 revelam a existência de 191 milhões de pessoas residindo fora de seu país de nascimento. Desses, 60% estão nos países industrializados - um em cada cinco migrantes está nos Estados Unidos, o maior país receptor de imigrantes da atualidade[12] .

Por migração se entende o processo geral de mobilidade espacial de duas vias - uma de entrada (imigração) e outra de saída (emigração) - que se opera em áreas afastadas entre si e separadas por fronteiras. Alguns autores no Brasil associam o termo ‘migração’ aos deslocamentos populacionais domésticos, de uma região para a outra dentro do país [13]. Isso é migração, mas também o é o processo que envolve um número considerável de pessoas, as quais, individualmente ou em grupos, transferem seu domicílio para outro país onde passam a viver e exercer regularmente suas atividades ocupacionais. São como essas pessoas os sujeitos que estudo, brasileiros que são considerados ‘migrantes internacionais’. Eles saem do Brasil como emigrantes e se radicam em outras terras como imigrantes.

A força que provoca a emigração pode ser de três tipos. A força de expulsão se dá de dentro para fora, geralmente deixando o indivíduo sem qualquer outra alternativa senão sair do país (ex. exilados políticos). A força de atração, que acontece de fora para dentro, sempre permite uma outra solução ao indivíduo, mesmo que ele esteja magnetizado pelas vantagens oferecidas pelo país-alvo (ex. propostas profissionais). A força de atração-expulsão, por ser dupla, é muito vigorosa, ao mesmo tempo em que ele é expelido de sua terra, ele é atraído pela outra (ex. jovens que não encontram conseguem entrar no mercado de trabalho e encontram sua chance fora do país)[14].

O fluxo emigratório no Brasil – um país tradicionalmente receptor - começou no final dos anos 1970, em plena ditadura militar. Logo após o golpe em março de 1964 e a publicação do Ato Institucional N0 1 (9/4/1964) foram cassados mandatos políticos e abolidos a imunidade parlamentar, a vitaliciedade dos magistrados e a estabilidade dos funcionários. Quatro anos depois, o Ato Institucional N0 5 (13/12/1968) fechou o Congresso Nacional e endureceu ainda mais a repressão policial e militar. Nesse período, mais de 100 pessoas foram diretamente banidas do país e, indiretamente, através de cassações, ameaças e perseguições, milhares se exilaram em outros países[15] . Em apenas um mês - abril de 1969 - foram expurgados 65 professores das universidades[16]. Era o início do movimento de brain drain no país, a fuga de cérebros para além das fronteiras, uma movimentação intelectual que se intensificou entre as décadas de 1970 e 1980. Nesse período, somente nos Estados Unidos, calculou-se em dezenas de bilhões de dólares o valor da transferência de capital humano implícita na migração de cientistas provenientes de países em desenvolvimento, entre os quais o Brasil[17]. A força que induzia a emigração nessa época era, sem dúvida, de expulsão.

Com a redemocratização do país em 1985 e a discussão em torno de uma nova constituição, criou-se grande expectativa no povo brasileiro. O novo Estado Democrático de Direito teria como fundamentos: a soberania, a cidadania, a dignidade do ser humano, os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa, além do pluralismo político (Constituição do Brasil, Artigo 1o). O Brasil construiria uma sociedade livre, justa e solidária, garantiria o desenvolvimento nacional, erradicaria a pobreza e a marginalização e também reduziria as desigualdades sociais para promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação (Artigo 3o). A saúde seria um dever do Estado (Art. 196) e a educação um direito de todos (Artigo 205). No entanto, o que se viu foi uma inflação galopante que açoitava a todos, mas feria mortalmente os mais pobres. Com a sucessão de planos econômicos que não davam certo e a escassez de emprego, as chances de uma vida melhor pareciam estar somente lá fora, o que gerou uma força de atração no fluxo emigratório.

Sem as restrições de viagens ao exterior antes impostas pelo governo militar, uma onda de turistas de classe média começou a sair do país. Em Nova York, um dos destinos mais visados pelos turistas, era intenso o comércio nas lojas montadas por brasileiros na Rua 46 e cercanias, uma zona que ficou conhecida como ‘Little Brazil’. Os lojistas brasileiros já estabelecidos na cidade tentavam atender a demanda de seus conterrâneos por artigos eletrônicos e maquinários de computação, uma vez que no Brasil ainda se mantinham a reserva de mercado e a sobretaxa nos importados, impostas pelos nacionalistas militares. Aos poucos, as malas de turistas passaram a ser substituídas por bagagens cada vez mais pesadas de candidatos a emigrantes. O historiador José Carlos Sebe Bom Meihy afirma que foi nessa época que se montou a base de “um experimento de migração” [18].

Ilusoriamente ou não, a terra de Tio Sam acenava com a possibilidade de riqueza e de sucesso. Muitos brasileiros emigraram para os Estados Unidos, onde arrumaram colocação no mercado de serviços de infra-estrutura (ex. garçons, faxineiros, recepcionistas de hotéis, etc.). De lá, eles ativaram suas redes sociais e seus familiares, amigos, vizinhos e pessoas da mesma cidade se dirigiam para o mesmo destino. Criou-se, então, um fluxo constante de emigrantes rumo aos Estados Unidos.

Embora a emigração de brasileiros possa ser considerada como um fenômeno social a partir dos anos 1980, é na década seguinte que ela ganhou contornos de um fato aceito e definitivo. O momento crucial veio com o Plano Collor e seus desdobramentos em 1990 e 1991. Ainda que o mercado brasileiro para importações tenha aberto e esvaziado em parte o comércio frenético dos turistas no exterior no governo de Fernando Collor, sua política econômica equivocada confiscou os ativos financeiros de particulares e arruinou a já combalida poupança da classe média. Entretanto, os mais atingidos foram aqueles a quem Collor dirigia o discurso: os pobres e ‘descamisados’. Com a retração do mercado e o aumento do desemprego, a população de baixa renda que ainda permanecia assalariada via sua remuneração minguar no fim do mês, por conta dos trinta dias consecutivos de inflação exorbitante[19]. Nesse período, acentuou-se a emigração de brasileiros oriundos das camadas mais populares, com baixa instrução e dinheiro insuficiente. Com esse fluxo emigratório, entrou em cena a figura do ‘coiote’, pessoa que, mediante pagamento, introduz ilegalmente migrantes nos Estados Unidos através da fronteira com o México. Inicialmente a travessia custava 300 dólares por pessoa, mas hoje custa mais de mil. Segundo o jornal Brazilian Times (11/12/2006), o esquema total de viagem do Brasil ao México, mais travessia da fronteira e entrada nos Estados Unidos pode custar de US$ 10 mil a US$ 15 mil. Com a exigência de visto pelo Governo mexicano, essa travessia encompridou porque agora é feita a partir da Guatemala[20].

Outro dado importante revelado pelo Instituto de Migrações e Direitos Humanos diz respeito à feminização quantitativa da população migrante mundial desde os anos 1970. Entre as causas do aumento de mulheres na rota migratória estão, além das motivações individuais, a reunificação familiar e a demanda trabalhista[21]. A migração laboral feminina está ligada à constante demanda de mão-de-obra doméstica nos países ricos, onde o número de mulheres profissionalizadas no mercado de trabalho se equipara, e em muitos ramos profissionais até supera, à de homens. A maioria das profissionais femininas nos países ricos tem atrás de si outras mulheres, mais pobres, que se ocupam das tarefas domésticas e cuidam das crianças e de idosos. Cada vez mais, esse ‘trabalho do lar’ é feito por mulheres migrantes que fogem de zonas com baixas taxas de crescimento econômico e uma situação de desemprego crônico[22]. O custo social dessa emigração pode ser muito alto para os países das migrantes porque muitas dessas migrantes deixam suas próprias casas e filhos para trás. As migrantes mais afortunadas, aquelas que ainda conseguem reunir a família, enfrentam o problema da dilatada flexibilização das horas no serviço doméstico, o que faz minguar seu tempo no lar. Como se esse não fosse dano suficiente para a autonomia pessoal da mulher e para a integridade social de seus filhos, o desequilíbrio na globalização econômica ainda inclui a perversidade do mercado do corpo. O tráfico de mulheres para a prostituição é intenso na via que liga mulheres de zonas menos favorecidas para as mais abastadas[23]. Na verdade, o estilo de vida nos países ricos só é possível devido à transferência de serviços associados ao papel da mulher vinda de países pobres[24].

Brasileiras e brasileiros, atualmente são cerca de 3 milhões aqueles que vivem fora do país, de acordo com o Serviço Federal de Processamento de Dados [25] . Entretanto, o Ministério de Relações Exteriores cita um número maior: 4 milhões, com mais da metade em situação irregular em países como Paraguai, Portugal, Japão e Estados Unidos [26]. O Paraguai explica-se pela contigüidade geográfica, Portugal pela proximidade lingüística. O país do sol nascente porque, na contramão da história de seus antepassados que outrora buscaram uma vida melhor no Brasil, os japoneses aqui radicados e seus descendentes já nascidos fora do Japão, os nikkei [27], sentiram-se atraídos pela velha terra que se reergueu depois da II Guerra Mundial, tornando-se uma potência econômica.

No caso dos Estados Unidos, os brasileiros ainda vão atrás do American dream, no qual a prosperidade dependeria apenas do esforço e trabalho contínuo, sendo a mobilidade social possível. Na verdade, muitos brasileiros reduziram esse sonho - “o sonho de uma terra onde a vida seria melhor e mais próspera e mais completa para todos” [28] - à oportunidade material de um padrão de vida mais elevado com salário alto, casa própria e automóvel na garagem. A esses brasileiros passou despercebida a dimensão maior do ‘sonho americano’: uma nova ordem social na qual homens e mulheres têm a possibilidade de atingir a estatura social mais alta de acordo com sua própria capacidade e também de ser reconhecidos pelo que eles são, independentemente das circunstâncias de seu nascimento ou posição social.

Segundo o jornal Boston Globe (19/2/1995) a população de brasileiros em Massachussets no ano de 1994 era de cerca de 150 mil, com cerca de 80% ilegais. De acordo com o Ministério de Relações Exteriores, no ano de 1996, havia ao todo uma população de 1.548.756 brasileiros no exterior, dos quais 598.526 residiam nos Estados Unidos. Em 2002, os registros consulares do Brasil já calculavam na ordem de 1.887.895 brasileiros no exterior, aparecendo os Estados Unidos novamente como o destino preferencial, onde se encontravam 42% dos emigrados, ou seja, quase 700 mil. No entanto, a contabilização do número de brasileiros nos Estados Unidos permanece indefinida porque há falhas no censo. Uma dessas falhas diz respeito ao próprio formulário que não contempla a origem nacional como categoria. Outra é devida à situação ilegal de muitos brasileiros que, então, não respondem ao censo por temer a deportação [29]. Sabe-se apenas que eles se concentram em quatro grandes aglomerações: a região de Nova York/Nova Jersey; a região de Massachusetts[30]/Connecticut, a Florida e a Califórnia, aqui listadas pela ordem populacional decrescente. Menores, mas já expressivos, são os agrupamentos de brasileiros nos estados da Filadélfia, Maryland, Virginia e Geórgia, também na mesma ordem.

Os brasileiros que se estabelecem nos Estados Unidos são sempre um chamariz para os parentes que ficaram para trás, embora, nesse fluxo emigratório, já tenha havido interrupção por quatro vezes.

O primeiro momento foi quando houve reajuste do câmbio em 1999 e o dólar teve seu valor quase duplicado. O segundo se deu em 2001, quando as Torres Gêmeas de Nova York foram atingidas pelo terrorismo e a vigilância dos serviços de imigração apertou. Nessa ocasião muitos imigrantes descobriram que, no país das oportunidades, o reconhecimento pelo que se é não se dá independentemente do nascimento ou posição social. A suspeição e o medo vieram à tona trazendo consigo o preconceito na sociedade estadunidense e muitos brasileiros, assim como outros hispano-americanos, começaram a ser ostensivamente descriminados. Vulgarizou-se o emprego da violência pelos agentes oficiais, inclusive contra os próprios cidadãos estadunidenses, tudo em nome do combate à militância ideológica que se opõe contra a política do Governo.

O terceiro momento foi quando, em 2003, o Governo estadunidense ordenou o segundo ataque contra o Iraque e a comunidade brasileira, assim como outras comunidades transplantadas, passaram a temer que seus filhos fossem convocados para lutar por um país que não os acolhia integralmente. Um ano antes, o presidente George Bush havia anunciado a possibilidade de reconhecimento e integração à sociedade dos imigrantes alistados no exército. Na prática, o que ocorreu foi a convocação de imigrantes à guerra no Iraque e, freqüentemente, o seu encontro com a morte antes que eles fossem reconhecidos como cidadãos estadunidenses (BT, 26/02/2008).

O quarto momento foi em meados de 2007, quando o mercado imobiliário entrou em crise nos Estados Unidos. A crise afetou a vida de muitos imigrantes brasileiros que tão longe perseguiam o sonho da casa própria. Segundo o Centro do Imigrante Brasileiro em Massachussetts, dos cerca de 300 mil brasileiros que vivem naquele estado, 25 mil brasileiros pagam hipoteca. Tendo tomado empréstimos subprime – um tipo de empréstimo destinado àqueles que ganham pouco e não têm histórico de dívidas – eles viram a prestação do imóvel subir de forma galopante, chegando a dobrar em alguns casos.

Embora o fluxo migratório para os Estados Unidos tenha arrefecido e até se desviado para outros países de fala inglesa como o Canadá e a Inglaterra, ainda é grande a comunidade de brasileiros que vivem, trabalham e estudam naquele país. É uma população diferenciada em gênero, classe social, status econômico e origem regional, ainda que uma grande dela seja de Minas Gerais e Santa Catarina.

Em Trinidad e Tobago, no Caribe, onde realizei um estudo etnográfico entre imigrantes brasileiros, observei que lá eles também são uma população diferenciada [31]. O que distingue os brasileiros de um e outro país é que, em Trinidad, os brasileiros são uma abstração, um grupo étnico difuso e sem amálgama social. Nos Estados Unidos, ao contrário, eles têm maior visibilidade como grupo étnico distinto, mesmo sendo identificados genericamente como ‘latinos’ - um termo que pode incluir portorriqueños, cubanos, mexicanos e outros hispano-americanos [32]. Os brasileiros, porém, têm modos de representar seu pertencimento a uma unidade sócio-político-cultural que são diferentes dos de outros latino-americanos. Eles falam uma língua distinta, falam o português e não o espanhol. Também têm sua própria música, dança, comida e bebida, até seu próprio lazer. São os ‘brasucas’ [33].

Para esses brasileiros, a emigração se dá por razões distintas que vão da busca por melhores condições de vida (segurança, estabilidade financeira, emprego, etc.) até os motivos afetivos – caso daqueles que categorizei como love migrants, migrantes do amor[34]. Fundamentalmente, eles emigram para sobreviver, porque quem deixou seu local de nascimento “definitivamente experimentou a morte de realidades (paisagens, cheiros, temperaturas, temperos, ritmos, espaços, cores, relações, objetos, pessoas e contextos)”, no dizer do antropólogo Roberto DaMatta (apud Meihy, 2004: 25).

Os primeiros migrantes que pretendiam apenas ganhar alguns dólares e retornar para o Brasil não se preocuparam em estabelecer laços de solidariedade com outros brasileiros. A meta era chegar, ganhar seu dinheiro e voltar para a terra natal. Por isso, inicialmente a comunidade brasileira não se firmou nem se afirmou perante a sociedade hospedeira, uma posição política que já havia sido conquistada por outras comunidades transplantadas. No entanto, no plano social, os brasileiros fortalecem os laços da comunidade e consolidam sua identidade social promovendo as mais diversas atividades. Eles fazem confraternizações, comemoram aniversários, promovem a apresentação dos recém-chegados, preparam despedidas, reúnem-se em igrejas, jogam futebol, organizam festivais (ex. Carnaval Parade, na Bay Area, em São Francisco, e na Little Brazil, Nova York) [35]. Nesses eventos, os brasileiros encontram mais do que a possibilidade de comunicação; eles descobrem um espaço de construção e reconstrução constante das identidades e papéis sociais dos indivíduos que ali interagem. De acordo com o sociolingüista John Gumperz[36], é na própria interação que as relações sociais se constituem e se constroem, ou seja, a cada contexto específico equivale uma determinada construção da significação e esta depende do posicionamento de cada indivíduo naquela interação.

Há, entretanto, um lugar de comunicação entre brasileiros que é ainda pouco estudado: os jornais comunitários produzidos por e dirigidos a brasileiros. Somente na Costa Leste, entre Boston e a Flórida, há cerca de trinta desses jornais circulando. Pelos Estados Unidos, os jornais brasileiros que mais se destacam são: The Brasilians (a grafia com a letra s, imbuída de significação), de Nova York; Brazilian Times e A Notícia, respectivamente, de Boston e de Malden, em Massachusetts; Brazilian Press e Brazilian Voice, os dois editados em Newark, Nova Jersey; Gazeta Brazilian News, de Fort Lauderdale, na Flórida; Brazilian Express, de Roswell, na Geórgia; e Brazil Today e Brazilian Pacific Times, respectivamente de São Francisco e São Diego, ambos na Califórnia.

Um estudo de Ernane Rabelo nos Estados Unidos mostrou que os imigrantes brasileiros têm um tempo escasso para leitura devido ao excesso de horas dedicadas ao trabalho [37]. Muitos deles, com baixo grau de letramento, não atingem o nível de proficiência na língua inglesa necessário para que eles leiam os jornais locais. Também não têm familiaridade com os jornais brasileiros que poderiam ser lidos on-line em português. Assim, os jornais comunitários são o principal canal de informação que muitos imigrantes brasileiros nos Estados Unidos têm para saber sobre o que está passando no mundo e no Brasil. Os jornais, por sua vez, alinham-se editorialmente ao perfil exigido pelos migrantes que se integram ao novo país [38].

Escritos em português, esses jornais usam o espaço da linguagem para construir um circuito lexical que dê conta de descrever tanto a sociedade em que eles se inserem como a comunidade a quem se dirigem. Para isso, inventam-se ou adaptam-se vocábulos que traduzam o que pensam e sentem aqueles que vivem em duas línguas[39]. Ao mesmo tempo, a linguagem evoca imagens e expressões que se fossilizaram no repertório de quem saiu do Brasil há algum tempo.

O significado no relato das notícias está – de acordo com Luiz Gonzaga Motta [40] - entre o lingüístico e os fatores extralingüísticos que influenciam, modificam e ampliam os sentidos literais das próprias notícias. Por isso, nos jornais comunitários de brasileiros no exterior, há uma analogia entre esse contar histórias e o caráter temporal da experiência migrante. O tempo vivido dos migrantes são momentos que se diferenciam qualitativamente em termos da mudança que se desenrola na seqüência uniforme do tempo cósmico[41]. Toda a temática dessa narrativa trabalha muito os paradoxos da migração: emigração e imigração, cá e lá, passado e futuro, identidade e alteridade. As notícias acompanham a própria condição de imigrante de seus leitores, a qual –como afirmou o sociólogo Abdelmaleck Sayad - oscila entre “o estado provisório que a define de direito e a situação duradoura que a caracteriza de fato” [42] .

Cada notícia individual publicada sobre o tema da migração vai ajudando a compor um todo narrativo. À medida que, em uma dialética entre a sucessividade e a síntese, o noticiário do jornal vai relatando ações que, embora fragmentadas, se estruturam de forma lógica e não necessariamente temporal, fazendo com que o enredo se torne mais coeso e o sentido da narrativa se expanda. Alguns assuntos surgem e permanecem nos jornais por períodos consecutivos, às vezes curtos, outras vezes, longos. Outros assuntos surgem e desaparecem por algum tempo até ressurgirem. Outros ainda, surgem e, esgotando-se em si, desaparecem por completo.

Na memória do leitor, as notícias são incessantemente confrontadas com fatos passados. Ele conecta uma notícia com a outra, reconstrói os enredos completos e entretece a história integral. A recepção dos dramas e tragédias humanas relatados por essas notícias – afirma Motta[43] - “é um espaço cognitivo de experiências estéticas, de gozo e de comoção simbólica”. É nesse espaço, pois, que os imigrantes percebem e simultaneamente experimentam o mundo do seu presente, os Estados Unidos, e o mundo do seu passado, o Brasil.

O Brazilian Times

Selecionamos o jornal Brazilian Times como objeto deste estudo levando em consideração três critérios: (1) sua antigüidade; (2) sua localização em uma das mais populosas áreas de migrantess brasileiros; e (3) sua institucionalização por meio de indicação consular brasileira [44].

Como dissemos anteriormente, o jornal Brazilian Times (BT) foi fundado em agosto de 1988 na região conhecida como Nova Inglaterra, situada na costa leste dos Estados Unidos da América. O nome do jornal espelhou-se no Portuguese Times, um jornal local dirigido à comunidade luso-falante, principalmente imigrantes portugueses. Durante seus dois primeiros anos, enquanto a tiragem não ultrapassava os dez mil exemplares, o BT utilizou-se da gráfica do Portuguese Times, que tinha uma tiragem de quinze mil exemplares. Logo, o novo jornal foi crescendo e ultrapassou a tiragem do jornal português. Teve, então, condições de estabelecer sede própria no Estado de Massachussets. Hoje são mais de 25 mil exemplares distribuídos três vezes por semana em Massachussets, Road Island e Nova Hampshire e, uma vez por semana, em Nova Jersey, Nova York e Connecticut. Em menor escala, o jornal chega também nos Estados da Filadélfia e Flórida. Há também uma versão on-line, iniciada em 2002, que é atualizada a cada dois ou três dias.

O proprietário e editor do jornal é ele próprio um imigrante nos Estados Unidos. Mineiro de Governador Valadares - uma das cidades brasileiras mais marcadas pela emigração para a terra de Tio Sam -, Edirson Paiva chegou aos Estados Unidos com o objetivo de aprimorar a língua inglesa em 1982, mas permanece até hoje. Formado em Letras pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Caratinga, Paiva faz parte do que chamamos de jornalismo espontâneo, isto é, um jornalismo feito não necessariamente por profissionais formados em escolas de comunicação, mas surgidos da necessidade de intercambiar informações em uma comunidade que, em um mundo eletronicamente globalizado, não é necessariamente ligada por contigüidade espacial [45].

A administração do jornal fica a cargo do proprietário e familiares. A equipe principal é formada por um editor-chefe, um assistente, dois repórteres, um fotógrafo, dois diagramadores, um revisor e um webmaster, além de quatro colunistas e dois colaboradores. No Brasil, o BT mantém ainda dois diagramadores, um técnico em internet, dois colunistas em Minas e um no Paraná[46].

O BT impresso tem um formato standard e sua distribuição é feita graciosamente em estabelecimentos comerciais. O jornal se sustenta com a publicidade oriunda de pequenos comércios brasileiros, mas também de empresas americanas e profissionais liberais. Os anúncios, dirigidos principalmente àqueles que vivem ou querem viver no novo país, variam da oferta de serviços de particulares à venda e aluguel de imóveis e veículos.

O BT on-line é mais um produtor de conteúdos, trabalhando muito em cima dos fatos brutos, sem que sua equipe se desloque ou se comunique diretamente por telefone com a fonte da informação. Na verdade, todo o jornal se identifica com as questões mais imediatas de seus usuários, o que reforça a identidade étnico-comunitária dos leitores. Esse caráter provinciano - com as notícias concentradas sobretudo na vivência comunitária - é visto pela antropóloga Tereza Sales[47] como uma representação fiel dos leitores. Essa vivência comunitária aparece tanto nas colunas sociais quanto nos informes religiosos e em depoimentos de experiências particulares. Os temas tratam de eventos sociais como rodeios, torneios ou concursos de beleza e contam de gente – tanto dos bem sucedidos (ex. empresários ou membros comunitários que adquiriram a cidadania) como dos mal-sucedidos (ex. os que cometeram crimes e estão sendo deportados). Dessa forma, os migrantes são potencializados como personagens dramáticos (dramatis personnae) no desenvolvimento dos conflitos e enredos para-literários da cobertura jornalística.

À possibilidade de que, com o enraizamento da primeira geração de imigrantes brasileiros, a segunda geração venha a se desinteressar pelos jornais comunitários – entre os quais o BT – Edirson Paiva explica:

Sobre a questão da segunda-geração, como vovô, diria que a expectativa de leitura de jornal impresso é limitada. Vamos ter de fazer uma virada de quase 180 graus para atingir o interesse deles. Se não vingar, temos já a opção do jornal eletrônico. A previsão americana para o jornal impresso é desanimadora: apesar dos 30 anos de existência do BT, a leitura atual cai a cada dia. Também os grandes jornais americanos estão diminuindo no tamanho... qualquer polegada a menos ajuda...o sistema de assinaturas está em baixa. No entanto, concluímos que nada desesperador está acontecendo, tudo é uma questão de adaptação. Afinal estamos no século do avanço tecnológico, onde o amanhã se apresenta, sempre recheado de novas descobertas, em todos os campos humano-científicos.[48]

A linguagem usada no jornal é muito coloquial, uma característica que é comum em outros jornais brasileiros[49]. Erros ortográficos e sintáticos não são incomuns. Também como os outros jornais brasileiros, o BT às vezes usa vocábulos criados para descrever os dois mundos em que ele está inserido e que, pela concepção de Tonnies, são: a comunidade com valores íntimos, privados, informais e afetivos (Gemeinschaft) e a sociedade de valores públicos e formais (Gesellschaft) [50].

O jornal estrutura-se em seis editorias, a saber: ‘Imigração’, ‘Comunidade Brasileira’, ‘Brazil News’, ‘World News’, ‘Esporte’ e ‘Artigos’. Há ainda quatro outras editorias não relacionadas com a reportagem: ‘Crônicas’, ‘Serviços’, ‘Entretenimento’ e ‘Interação’. As editorias ‘Brazil News’, ‘World News’ e ‘Esporte’ possuem, respectivamente, seis, oito e nove notícias semanais. A editoria ‘Artigo’ não possui número fixo de publicações.

As editorias em destaque na webpage do BT são ‘Imigração’ e ‘Comunidade Brasileira’ com um número variável de notícias semanais. São essas editorias que fazem as chamadas de capa porque seu noticiário aborda os temas que estão no núcleo das questões consideradas cruciais à comunidade: a imigração e, particularmente, os acontecimentos que envolvem imigrantes brasileiros.

O corpus da pesquisa

As matérias usadas na pesquisa foram principalmente retiradas das editorias de ‘Imigração’ e ‘Comunidade Brasileira’ da versão on-line do jornal durante os anos de 2006 e 2007. As unidades de análise deste trabalho, em particular, são matérias datadas do período contido entre outubro/2006 e fevereiro/2007, todas elas disponibilizadas na internet.

Após o estudo de seu conteúdo, essas matérias foram categorizadas em grupos identificados como: (1) ‘Migração e cidadania’, com matérias que tratam da problemática da imigração nos Estados Unidos, narram episódios sobre entrada ilegal de migrantes (não necessariamente brasileiros), discutem a lei de imigração; identificam os procedimentos a serem seguidos na busca da cidadania estadunidense e relatam casos dos movimentos organizados dos migrantes; (2) ‘Imagem do Brasil’, com matérias sobre acontecimentos nos quais é veiculada uma imagem do Brasil; (3) ‘Comunidade híbrida’, com matérias que revelam uma comunidade brasileira multifacetada pelo intercâmbio cultural (entre brasileiros e estadunidenses, mas também entre brasileiros e membros de outras comunidades transplantadas) e pela incorporação de hábitos e costumes da terra; e (4) ‘Personagens da narrativa’, com matérias que destacam os imigrantes brasileiros e facilitam a construção de seu perfil.

Algumas matérias foram difíceis de serem classificadas pelo seu conteúdo, elas poderiam se encontrar em diferentes categorias, já que estas muitas vezes se sobrepõem. Esse é o caso da matéria sobre a programação brasileira no rádio (ver III.6 na lista das matérias, abaixo) que pode estar incluída em ‘Comunidade Híbrida’ como em ‘Imagem do Brasil’, já que nela há uma descrição dos brasileiros. Também a matéria sobre o apresentador de televisão Christopher Antal, que ofende a bandeira do Brasil e injuria a comunidade brasileira (II.9) que, embora tendo sido listada como ‘Imagem do Brasil’ poderia ter sido incluída no grupo ‘Comunidade Híbrida’. E assim muitas outras matérias.

A lista de títulos das matérias segue uma ordem cronológica, a não ser em casos em que elas tratam do mesmo episódio, como é o caso do seqüestro de um bebê de brasileiros (ver IV.6); o da acusação ao motorista que conduzia o caminhão onde dezenove migrantes morreram sufocados (I.4); o de três brasileiros presos em Charlestown, Ma. (I.14); e o da expectativa e frustração durante e após as eleições para governador nos estados de Massachusetts e Nova Hampshire (I.9).

Os títulos das matérias foram reproduzidos tal qual sua publicação no Brazilian Times. Mantivemos a grafia das palavras mesmo com eventuais falhas ortográficas (como é o caso de ‘seqüestro’ que no jornal é escrita sem o trema no u; ‘língua’, sem acentuação aguda no i; ‘portuguesa’ com acento circunflexo no e; crase na frente da expressão masculina ‘dois bebês’) e desvios gramaticais (como o uso de ‘hispana’ por ‘hispano’, uma palavra que serve de elemento de composição com o significado de ‘hispânico’, ex. ‘hispano-americana’).

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I - Migração, cidadania e exclusão social

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1. Pesquisa mostra hostilidade dos Estados Unidos com seus visitantes (22/11/2006).

2. Imigração extraviou mais de 110 mil arquivos nos últimos anos (4/12/2006).

3. Mudanças no teste de cidadania (4/12/2006).

4. Motorista pode pegar pena de morte (6/12/2006).

Acusado da morte de 19 imigrantes condenado à prisão perpétua (19/1/2007).

5. Casamentos Fraudulentos (6/12/2006).

6. Imigrante (8/12/2006).

7. Inaugurada em Allston a Cooperativa de Mulheres - Vida Verde (8/12/2006).

8. Lei dos 180 Dias (11/12/2006).

9. Imigrantes querem Deval Patrick no governo (25/10/2006).

Brasileiros se unem para eleger Deval (22/11/2007)

Comissão de Deval Patrick chega nesta quarta-feira a Framingham (13/12/2007).

Democratas assumem o poder e enchem imigrantes de esperança (5/1/2007).

Derrota nas urnas deixa imigrantes órfãos em NH (BT, 09/02;07)

Governador de MA quer penalizar quem contratar ilegais (26/2/2007).

10. Cerca de 1300 imigrantes presos nesta semana (15/12/2006).

11. Começa combate contra Mal de Chagas (15/12/2006).

12. Vigilantes da fronteira ajudam ilegais tocados pelo clima natalino (18/12/2006).

13. Sylvester Stallone critica “muro da vergonha” (10/1/2007).

14. Imigração dá batida em Charlestown e assusta vizinhança (12/01/2007).

ICE: Dos três detidos em Charlestown apenas um foi liberado (22/1/2007).

15. Brasileiro que queria enganar a polícia tem corte dia 3 de abril (BT, 21/2/2007).

16. Reforma de Imigração na mesa de discussão novamente (BT, 21/2/2007).

17. Senado dos EUA votará reforma migratória até agosto, segundo Reid (BT, 28/2/2007).

200 imigrantes foram presos na semana passada (26/2/2007).

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II – Imagem do Brasil

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1. Filme brasileiro tem mais sucesso nos EUA do que no Brasil (11/10/2006).

2. Cultura brasileira invade os EUA (25/10/2006).

3. O que rola em Boston com sotaque baiano (27/10/2006).

4. Oficina G3 agita Framingham (22/11/2006).

5. Lingua Portuguêsa e interesse de americanos (11/12/2006).

6. Lésbica brasileira ganha asilo nos Estados Unidos (20/12/2006).

7. A musicalidade brasileira em New York (5/1/2007).

8. Filme sobre Brasil corrupto e violento vence festival (29/1/2007

9. Prefeita de Marlboro pede desculpas aos brasileiros por “Skunk”(2/2/2007).

Skunk perde programa de TV (5/2/2007).

10. Ivan Lins faz apresentação no Regattabar Jazz Festival em Boston (28/2/2007

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III - Comunidade híbrida

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1. 2º. encontro de Cowboys in NY (6/10/2006).

2. Brasileiro luta por uma vaga no Senado dos EUA (11/10/2006).

3. Igreja celebra Nossa Senhora Aparecida (11/10/2006).

4. Boston em Governador Valadares, na TV (13/10/2006).

5. Brasileiro preparado para o Thanksgiving (22/11/2006).

Terceiro Jantar no Thanksgiving é mais uma vez um Sucesso (29/11/2006).

6. Programação brasileira salva rádio em Framingham (4/12/2006).

7. Alistamento Militar (8/12/2006).

8. Um Novo Cônsul, um Novo Tempo (11/12/2006).

9. Casa hispana inaugura noite brasileira amanhã (13/12/2006).

10. Victoria's Grill a melhor opção para quem quer comer bem em Waltham e região (13/12/2006).

11. Old Colony Liquor's , a loja de bebidas dos brasileiros da Nova Inglaterra (15/11/2006).

12. A 'Festa do Chá' em Boston (18/12/2006).

13. A Religião e os imigrantes brasileiros (5/1/2007).

14. Comida Brasileira - Sucesso em New York (5/1/2007).

15. Brasil vai ampliar rede de consulados nos EUA ( /1/2007).

16. O Amor está no ar... ( 14/2/2007).

17. Brasileiro diz que lutou no Iraque por benefícios (22/1/2007).

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IV – Brasileiros como personagens

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1. Drogas acabam com vida de brasileiros nos EUA (25/11/2006).

2. Brasileiro desabafa. Envolvido na “armadilha da imigração” se diz inocente (29/10/2006).

3. Empresário prepara primeira revenda de peças (30/10/2006)

4. Marcelo Pereira, Um espírito empreendedor (22/11/2006).

5. Brasileiro preso nos EUA tenta suicídio (29/11/2007).

6. Bebê de brasileiro é sequestrado nos EUA (6/12/2006).

Polícia desconfia que o bebê raptado foi vendido (8/1/2007).

Bebê brasileiro é sequestrado por causa de dívida com coiotes (11/12/2006).

7. Miss Brasil pretende ministrar curso de modelo (6/12/2006).

8. Sonho americano (BT, 8/12/2006).

9. Brasileira é achada morta em Deerfield Beach-FL (8/12/2006).

10. Brasileiro é acusado de estuprar mulher dentro de McDonalds (8/12/2006).

11. Brasileiro quer entrar para Ultimate (8/12/2007).

12. Tudo por um trabalho (15/12/2006).

13. Brasileiros brigam por causa de uísque durante vôo (18/12/2006).

14. Brasileiro morre em acidente de trânsito e abala comunidade (20/12/2006).

15. Modelo brasileira de Boston faz sucesso nos EUA (20/12/2006).

16. Exclusivo:1ª entrevista com vítima de atentado à bomba em Somerville (27/12/2007).

17. Após 4 anos nos EUA, gaúcho é morto ao chegar no RS ( 5/1/2007).

18. Brasileiros presos por molestarem menina de 13 anos (5/1/2007).

19. Em nome da fé: Bispos brasileiros são presos pela polícia norte-americana (10/1/2007).

Interpol deverá prender fundadores da renascer nos Estados Unidos (12/1/2007).

20. Irmãs brasileiras dão luz à três bebês (12/1/2007).

21. Brasileiro acusado de molestar menores (5/2/2007).

22. Condenação: empresário brasileiro de Allston pega cinco anos de prisão (5/2/2007).

23. Professoras de Framingham fazem expedição no Pantanal (9/2/2007).

24. Brasileiro procurado no Brasil é preso em Framingham (23/02/2007).

25. Mineira vence domingueira em Somerville (26/02/2007).

26. Brasileiro de Framingham ataca mulher e amante com taco de baseball (28/02/2007).

Análise da narrativa

Não há dúvida que a história do presente da migração brasileira para os Estados Unidos está sendo narrada no Brazilian Times. Essa narrativa é repleta de fatos dramáticos que, embora curtos, nos permitem proceder a uma ‘análise de incidentes’, isto é, um estudo vertical, que nos auxilie a compreender os fatos e entender a significação dos acontecimentos na tentativa de escrever a história do presente [51].

Os episódios que compõem a narrativa sobre a migração no Brazilian Times nem sempre são felizes, como nas imagens tradicionalmente projetadas pela mágica hollywoodiana. De outubro/2006 a fevereiro/2007, foram narrados vários episódios que ligam os brasileiros à ilegalidade na entrada do país ou na passagem pela alfândega. Citamos alguns:

• O seqüestro de um bebê de pais brasileiros em Fort Myers, Florida, por conta de dívidas com coiotes (BT, 6, 8 e 11/2/2007).

• Um brasileiro, 41 anos, que residia em Allston, Ma., foi condenado a cinco anos de prisão pelo crime de tráfico de imigrantes não-documentados para os Estados Unidos e por ainda obrigá-los a trabalharem para sua empresa de limpeza. (BT, 5/2/2007)

• Retornando à sua residência em Miami, um casal de bispos foi preso por contrariar a lei alfandegária dos Estados Unidos ao entrar no país portando, escondidos em bolsas, porta-CDs e até na capa de uma Bíblia encontrada na bagagem, U$ 56 mil em espécie, uma quantia bem acima dos U$ 10 mil permitidos e por eles declarados. (BT, 10 e 12/01/2007)

• Outro brasileiro, de 40 anos de idade, foi levado à corte judicial na cidade de Hampton, NH, acusado de falsidade ideológica por tentar tirar uma carteira de motorista com documentos forjados que o identificavam como cidadão estadunidense. (BT, 21/2/2007)

• Um mineiro de 31 anos foi pego no que ele chamou de “cilada” armada na cidade de Chelsea, em Massachusetts, na qual ele e mais 26 brasileiros foram induzidos a comprar o Green Card por alguns agentes do Serviço de Imigração (Immigration and Customs Enforcement-ICE). O brasileiro se sentiu injustiçado porque “apenas” tentou adquirir documentos falsos. (BT, 29/01/2007).

Alguns dos episódios desta narrativa migratória mostram brasileiros que se envolvem em crimes sexuais, uma situação bastante delicada, pois, de acordo com o jornal (BT, 5/1/2007), este tipo de crime é “considerado gravíssimo” nos Estados Unidos. Eis alguns deles:

• Um brasileiro, 49 anos, foi preso sob a acusação de estar abusando sexualmente de algumas das crianças que ele cuidava em uma creche clandestina de sua propriedade em Atlanta, onde a maior clientela são filhos de imigrantes brasileiros. (BT, 5/1/2007)

• Dois brasileiros, de 22 e 24 anos, foram presos por molestarem uma menina de 13 anos no interior de um carro, no estacionamento do hotel na conhecida estação de esqui Timberline, em Four Seasons Resort, West Virgínia, onde eles estavam hospedados durante os feriados de fim-de-ano. (BT, 5/1/2007).

De acordo com o Consulado Geral do Brasil em Boston, em janeiro deste ano havia cerca de 120 brasileiros detidos nas prisões estaduais. Depois do aumento significativo no número de ilegais, os brasileiros estão sendo transferidos para prisões da Geórgia ou do Texas. Nos casos criminais, os brasileiros precisam primeiro cumprir a pena para depois serem deportados. O processo de deportação é relativamente rápido porque não interessa às autoridades norte-americanas manter o ônus da prisão. O maior problema é o retorno, feito em vôos comerciais, já que as companhias aéreas não gostam de ceder as vagas de passageiros pagantes (BT, 22/1/2007).

Ainda hoje, quando o acesso à informação é maior, muitos emigrantes brasileiros - tal qual seus predecessores nos anos 1980 e 1990 - continuam se dirigindo aos Estados Unidos em busca do ‘sonho americano’, que nem sempre atingem. Em Sommerville, Ma., por exemplo, alguns brasileiros fazem ponto no Parque Foss, expondo-se ao frio intenso do inverno desde as sete horas da manhã, para conseguir o trabalho que fica reduzido em até 80% nessa época do ano. A maioria deles são trabalhadores da construção civil que tentam sobreviver ganhando de 12 a 15 dólares por hora, o que não é muito quando as horas são escassas para o duplo compromisso de se manter nos Estados Unidos e, ao mesmo tempo, enviar dinheiro para as famílias que ficaram para trás, no Brasil. O Brazilian Times revela o sacrifício pessoal desses brasileiros que também não vêem perspectiva no Brasil:

Mauro revelou que deixou uma filha no Brasil há dois anos e que tenta sobreviver por aqui ganhando de 12 a 15 dólares a hora. “Nessa época a coisa fica tão feia que não da (sic) nem pra mandar dinheiro pra casa”, disse em tom de preocupação. O seu colega, Rogério Silva, 46 anos, que agora ta (sic) andando de bicicleta pra economizar uns trocados e complementar o aluguel, disse que a saída para o pouco trabalho de pedreiro no inverno e tentar limpeza de restaurante ou mesmo dish wash. Para Rogério, que tem um ano e meio de América, vir para os Estados Unidos pensando em ficar rico não passa de ilusão. “Pago 350 dólares em um quarto numa casa com duas famílias. Tudo que ganho vai para pagar despesas com alimentação e moradia. Tem hora que penso em desistir. Mas, mesmo assim, acho que está pior no Brasil”, afirma de maneira (BT, 15/2/2007)

Os trabalhadores identificados pelo Brazilian Times estão entre os imigrantes brasileiros que, em 2005, enviaram ao Brasil US$ 6,4 bilhões (R$ 13,8 bilhões). Esse dinheiro, que coloca o Brasil em segundo lugar no ranking dos países da América Latina com volume de remessas feitas por imigrantes no exterior[52], é geralmente enviado para ajudar no sustento das famílias, como as de Mauro e Rogério. Muitos desses trabalhadores demoram anos até se reunirem, aqui ou lá, com seus parentes. Outros, nunca chegam a rever seus entes queridos na terra natal, como aconteceu com o mineiro de 20 anos que, vivendo há dois em Bridgeport, Connecticut, morreu em um acidente de motocicleta no qual, imprudentemente, não estando de capacete, bateu a cabeça no chão. Sobre seus ganhos financeiros nos Estados Unidos, parentes disseram que “todo o dinheiro conseguido foi destinado a ajudar a família que vive no Brasil” (BT, 20/12/2006).

No início deste ano, o Brazilian Times publicou um caso curioso que revela uma outra face da emigração brasileira: a violência em nossos centros urbanos. A violência vem afugentando os brasileiros das grandes cidadess para o interior do país e, também, os têm levado a outros países com índices mais baixos de criminalidade, onde eles esperam encontrar maior respeito à noção de cidadania e mais compromisso do indivíduo com as regras de convívio social. Nas cidades brasileiras, a violência se desencadeia pelo desequilíbrio nas condições de vida e de convívio no espaço urbano, mas as causas de fundo vão das desigualdades econômicas profundas ao apartamento social crescente[53]. Foi com essa violência que um gaúcho, 45, há quatro anos trabalhando com dois irmãos em uma oficina mecânica em Margate, Flórida, se reencontrou ao retornar ao Brasil, onde deixara a esposa e dois filhos menores em Cidreira, uma pequena cidade do litoral do Rio Grande do Sul. “Ele enviava tudo que ganhava para a família e trabalhava dobrado para conseguir juntar dinheiro”, revelou um colega seu (BT, 2/1/2007). Com horas de sua chegada no Brasil, o mecânico morreu baleado em um assalto.

Na narrativa sobre a migração brasileira as personagens são complexas: elas vivem e morrem, riem e choram, amam e matam. Predominam as personagens planas, aquelas que são construídas a partir de uma única idéia – a da sobrevivência em terra estrangeira – a qual é constantemente lembrada em uma repetição que força o desenho caricatural do imigrante como um sujeito mal dotado, sem posses, pouco favorecido pela vida. No entanto, afastam-se do estigma caricatural a pernambucana que vive em Boston e que, como modelo profissional, faz sucesso nos Estados Unidos (20/12/2006) e a paranaense que é professora em uma escola de Framingham e que, sendo participante do projeto de conscientização ambiental Earthwatch faz, com colegas estadunidenses, uma expedição ao Pantanal (BT, 9/2/2007). Elas são duas personagens redondas, não definidas, imprevisíveis. Como elas há outras personagens que também não estão conformados à imagem do imigrante pouco favorecido. Entre elas estão alguns brasileiros que se dedicaram ao mercado culinário como a capixaba que tem um restaurante bem sucedido em Waltham, Ma., com buffet e comida brasileira à la carte, e ainda um suco da fruta tropical (cajá-manga) de grátis em campanhas promocionais (13/12/2006). Outro brasileiro, proprietário já há quatro anos de um dos restaurantes brasileiros mais freqüentados na região de Astoria-Queens, em Nova York, diz que o segredo para o sucesso está no atendimento e na qualidade oferecidas. "O retorno para mim tem sido muito gratificante", ele enfatiza. (5/1/2007).

De fato, o mercado culinário tem sido “uma boa opção de negócio para investidores brasileiros da área comercial”. A popular Brazilian food se apresenta como uma alternativa de negócio tanto para grandes como para pequenos empreendedores, movimentando a economia e gerando oportunidades para aqueles que vêm do Brasil. Além do sabor e aroma da comida brasileira, o bom atendimento e a limpeza são outros ingredientes para o sucesso desse tipo de negócio. A churrascaria Plataforma que se instalou em Nova York, em 1966, e hoje conta com dois endereços (na Rua 49 e em Tribeca) é referência de qualidade. Em 2005, recebeu o prêmio ‘Golden Apple’ por ser exemplo de limpeza e segurança. O Brazilian Times revela que o restaurante gera trabalho para mais de 150 pessoas entre brasileiros, hispânicos e até norte-americanos. Para muitos brasileiros, é o endereço certo para o almoço do domingo, mas também já “ganhou o gosto e a confiança dos consumidores de diferentes nacionalidades e também dos yankes” (5/12/2006).

O Brazilian Times (22/11/2006) lembra que “conquistar o sucesso não é tarefa fácil’. Que o diga o empresário mineiro que, tendo ido para os Estados Unidos a fim de aprender a língua e conhecer a cultura, acabou ficando. Seu primeiro emprego foi de garçon em uma loja de fast-food, onde os proprietários gostavam do seu trabalho “porque fazia de tudo, mantinha tudo limpo”. Depois do primeiro, ele trabalhou em outros empregos, como dishwasher (lavador de louças), bartender (garçom de bar) e, finalmente, como car broker (vendedor de carros). Foi no mercado de carros que encontrou sua oportunidade, comprando um negócio de revenda e, logo, ampliando-o para adicionar uma oficina mecânica. No Brazilian Times, o empresário é visto como o tipo de pessoa que corre atrás de seu objetivo – ou como diz o jornal, “hunting one’s goal’.

A narrativa das personagens bem sucedidas embute em si um fator decisivo para a sua aceitação: a antigüidade no lugar. Para o sociólogo Norbert Elias, a antigüidade consegue gerar coesão grupal e identificação coletiva. Com John Scotson, Elias expôs o conflito nas relações de poder em uma comunidade dividida entre um grupo de pessoas já estabelecidas no lugar e outro grupo mais novo de residentes, vindos ‘de fora’. Os já estabelecidos consideravam-se superiores, melhores do que os recém-chegados. Estes, com o passar do tempo, “pareciam aceitar com uma espécie de resignação e perplexidade, a idéia de pertencerem a um grupo de menor virtude e respeitabilidade” [54]. Freqüentemente as tensões existentes entre um agrupamento de imigrantes estrangeiros e a sociedade hospedeira são atribuídas às diferenças lingüístico-culturais, mascarando-se assim o binômio established/outsiders que, no fundo, é o que as gera. Na narrativa do Brazilian Times, o conflito entre os established e os outsiders é latente em episódios ocorridos em Framington e Marlboro, dois lugares onde a população de imigrantes brasileiros é significativa.[55]

Em Framington, a rádio 650 A. M estabeleceu uma programação que veiculasse a língua falada nas ruas: o português, com o intuito de garantir a audiência e conseguir a publicidade do comércio “verde e amarelo”, hoje garantindo 99% do espaço reservado para a propaganda. No planejamento futuro da emissora está a abertura de um espaço de entrevistas com parentes de brasileiros que ficaram no Brasil. Com o novo perfil, a rádio foi obrigada a contratar tradutores que pudessem monitorar os programas da rádio diariamente. Muitos ouvintes estadunidenses, porém, reclamaram da rádio ter aberto tanto espaço para uma programação em idioma estrangeiro (BT, 4/12/2006) [56].

Em Marlboro, um apresentador de programa de televisão (canal M8), depois de urinar na bandeira do Brasil, ofendeu os brasileiros chamando-os de ‘preguiçosos’. A prefeita da cidade reuniu-se com as lideranças da comunidade brasileira para pedir desculpas. Unidos, os brasileiros se fizeram acompanhar do Cônsul Geral do Brasil em Boston e também avisaram a Rede Globo que noticiou o fato no programa dominical Fantástico. Toda essa articulação provocou a demissão do apresentador (BT, 2 e 5/12/2007).

Episódios como esses contrariam a visão da comunidade brasileira que tem o jornalista James Felzen, hoje radicado em Nova York. Ele afirma que os brasileiros são “diferentes dos demais imigrantes que se organizam, criam instituições de apoio, se promovem, se ajudam e trabalham coletivamente” [57]. Diz que faltam instituições capazes de agregar os brasileiros e promover, entre eles, contatos mais freqüentes e conseqüentes. De fato, há uma diferença entre o que ocorre em uma megalópole como a Cidade da Maçã e outros lugares menores da Costa Leste dos Estados Unidos, como Nashua, em Nova Hampshire, e Allston e Framington, em Massachussetts, onde os brasileiros estão se organizando em associações representativas.

Em Nashua, o prefeito realizou cinco debates para ouvir sugestões dos imigrantes no primeiro semestre/2007. Nesse período as estimativas apontavam um aumento significativo no número de imigrantes, contrariando o Censo de 2000, que detectou a presença de 2 mil brasileiros e 5 mil hispânicos na cidade. Estima-se que hoje o número de hispânicos e o de brasileiros sejam de, respectivamente, 5 e 6 mil em Nashua, incluindo os não documentados. Para falar em seu nome, a comunidade brasileira indicou uma pessoa de seu meio. A representante, que é tradutora, tem grande domínio da língua inglesa, o que certamente lhe ajuda a bem expor as sugestões e reivindicações do grupo. Aliás, a barreira lingüística, bem como o acesso à educação e à saúde, foi tópico de debate (BT, 23/2/2007).

Em Allston, um grupo de brasileiros – 12 mulheres e 1 homem - que cuidam de limpeza fundaram uma cooperativa de housecleaners em parceria com a Trufts University e o apoio do Grupo Mulher Brasileira (BT, 8/12/2006). Em Framington, a comunidade brasileira organizou-se para eleger Deval Patrick, o primeiro governador negro no Estado de Massachussetts. O fato de Patrick ser negro e vindo das camadas populares fez com que a vitória política dos Democratas estimulasse “as expectativas da comunidade brasileira por futuras conquistas para a melhoria da qualidade de vida dos imigrantes e também para abrir esperanças de que se resolva a situação dos ilegais” (22/11/2006). Depois da vitória de Patrick, a Brazilian American Association (BRAMAS) marcou, com a presença do novo governador, uma reunião para que a comunidade pudesse “se expressar e se fazer conhecida do novo governo”. A presidente da associação lembrou que a entidade era apenas a facilitadora da reunião e que aquela seria uma oportunidade única para que a comunidade imigrante brasileira pudesse apresentar suas reivindicações. Da comissão do governador fez parte um brasileiro, Álvaro Lima, que é Diretor de Pesquisas Econômicas e Sociais da cidade de Boston (BT, 13/12/2006).

Através da narrativa do Brazilian Times, percebe-se que o grau maior de organização dos brasileiros está diretamente ligado ao nível de fixação dos imigrantes à nova terra. Essa idéia está contida na própria definição de imigrante dada pelo jornal:

Um imigrante, normalmente é aquele a quem é concedido um determinado período de tempo para se tornar um cidadão. Ele recebe primeiramente a residência permanente, que lhe permite trabalhar e viver no país. As leis de imigração supõem que todo imigrante que chega nos EUA tem a intenção de ser residente permanente. Já os não-imigrantes são aquele que entram nos EUA por um período de tempo específico. Eles podem permanecer por um determinado tempo e têm permissão para trabalhar, estudar e fazer turismo, dependendo do tipo de visto que possuírem. Quando o período determinado se esgota, eles têm que retornar para o país de origem, exceto se conseguem uma prorrogação ou entram com algum processo que os permita tornar residentes permanentes legais. (BT, 8/12/2006)

De acordo com o Brazilian Times, o caminho da fixação na nova terra é percorrido com passos bem definidos. O imigrante primeiramente se candidata à residência permanente e, só depois de cinco anos consecutivos vivendo nessa condição, ele pleiteia a cidadania. No caso do(a) imigrante ser casado(a) com uma(um) cidadã(o) estadunidense, o período de residência permanente exigido diminui para três anos. Entretanto, em qualquer dos casos, é necessário que os imigrantes vençam a barreira lingüística: eles devem ter proficiência em inglês, a língua oficial dos EUA. Os candidatos precisam ter habilidade para ler e escrever, além de demonstrarem competência oral em inglês, particularmente no que diz respeito ao léxico do cotidiano. Adicionalmente, os candidatos devem demonstrar conhecimento sobre a história e o governo dos Estados Unidos da América.

Aprender uma segunda língua implica em, até certo ponto, conhecer a cultura do povo que a fala. Para um processo saudável de aquisição de outra cultura, o lingüista Douglas Brown postulou quatro estágios. O primeiro estágio é um período de excitação e euforia por conta de toda a novidade que o recém-chegado vê ao seu redor. No segundo estágio, o indivíduo se dá conta das diferenças e tem um choque cultural ao perceber que elas abalam a sua autoconfiança e a imagem do seu ‘eu’. É quando ele busca e conta com o apoio de seus compatriotas para quem se queixa dos costumes locais. No terceiro estágio, há uma tensão cultural com a solução de alguns dos problemas de adaptação e a persistência de outros, pelo menos por algum tempo. É nesse estágio que o indivíduo começa a aceitar as diferenças e desenvolve maior empatia com as pessoas da outra cultura. No quarto estágio, o indivíduo recupera-se quase que completamente, se não totalmente, ou pela assimilação ou pela adaptação. Ele aceita a nova cultura e desenvolve autoconfiança na pessoa em que ele se tornou ao imergir nessa cultura.

Nem todos os imigrantes, porém, saem do terceiro estágio da mesma forma. Alguns entram em uma situação de anomia[58], sem identificar-se com as normas da sociedade envolvente, conseqüentemente não se integrando à cultura nova. Nos casos mais graves, o indivíduo fica à deriva, sem saber como agir. Isso pode vir a lhe encaminhar para soluções drásticas, como aconteceu com o lutador de jiu-jitsu brasileiro que tentou se enforcar em uma cadeia do Estado de Virginia, depois de ter sido preso por causar tumulto em um vôo da United Airlines (BT, 29/10/2006) e o proprietário de uma pizzaria em Somerville, que, em um crime passional, explodiu o carro de seu rival (BT, 27/1/2007).

No entanto, aqueles que chegam ao quarto estágio são os que conseguem, a partir de seus próprios conflitos e ambivalências, construir uma comunidade híbrida. São brasileiros que falam o inglês e querem ensinar português, como a curitibana que mora há cinco anos nos EUA (BT, 11/12/2006); que festejam o Thanksgiving Day, o dia de Ação de Graças (BT, 22 e 29/11/2006), ao mesmo tempo que promovem uma ‘Noite Brasileira’ com a presença de estadunidenses e membros de outras comunidades transplantadas (13/12/2006); que presenteiam seus namorados no dia de São Valentino, em 12 de fevereiro, mas também no dia de Santo Antônio, em 12 de junho (BT, 14/2/2007); que celebram a Festa do Chá de Boston, Boston Tea Party (BT, 18/12/2006) e continuam comemorando o Carnaval (BT, 21/2/2007); que votam (BT, 13/12/2006 e 5/1/2007) e querem ser votados, como o brasileiro que se candidatou ao Senado pelo Estado de Tennessee (BT, 11/10/2006). São brasileiros que podem ser policiais, como o detive brasileiro de Boston (BT, 23/2/2007), ou serem convocados a lutar na guerra do Iraque (BT, 22/1/2007) e, ainda assim, deleitarem-se com a música brasileira tocada em casas noturnas da cidade de Nova York ou em Newark, Nova Jersey (BT, 5/1/2007).

Considerações Finais

Neste estudo, fizemos uma análise de fatos narrados no Brazilian Times. Mostramos como o relato desse jornal comunitário de brasileiros se constitui em acontecimentos narrativos que conformam, em um capítulo particular sobre o fenômeno social da emigração, a história do presente.

Mostramos também como o Brazilian Times apresenta a seus leitores uma determinada realidade que, evidentemente, não é neutra nem objetiva, como não o é a imprensa em geral. Com maior espaço dedicado às editorias ‘Migração’ e ‘Comunidade Brasileira’, essa realidade dá visibilidade a uma determinada representação da realidade: a realidade afeta ao imigrante brasileiro, particularmente o recém-chegado aos Estados Unidos.

Ainda que a perspectiva do leitor-imigrante seja considerada, o jornal constrói sentidos. Ele forma e estrutura o pensamento dos leitores com uma narrativa que é, muitas vezes, alegórica. São contos que contêm unidade dramática, mas que, em seu conjunto, constroem uma trama comum sobre pessoas que deixaram seu país para viver no exterior. Os protagonistas dos contos são pessoas reais, de carne e osso, que, quando construídas como figuras do discurso, se justapõem na narrativa, acentuando um padrão maniqueísta: ou elas bem sucedem ou entram em desgraça na nova terra.

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[1] Este projeto está inserido no Grupo de Pesquisa A construção narrativa da história do presente: representação da política no jornalismo brasileiro, que está registrado no Diretório de Pesquisa do CNPq e é coordenado por Luiz Gonzaga Motta.

[2] Em Cunha (1996) usei o termo comunidade transplantada para identificar as comunidades constituídas por migrantes estrangeiros que criaram raízes no Brasil, por exemplo, os alemães que se instalaram ao longo do rio do Texto, no Vale do Itajaí. Em 1861, famílias chegadas da Província de Pomerânia, no norte da Alemanha, deram origem à cidade de Pomerode, que até hoje apresenta forte influência alemã, como a própria língua e a arquitetura enxaimel (Fachwerk).

[3] Na França, um país onde a intolerância com os imigrantes ganhou muita força nos últimos anos, depois dos atentados terroristas nos Estados Unidos, Espanha e Grã-Bretanha, o termo ‘étnico’ é usado amplamente para designar os jornais e rádios produzidos e/ou dirigidos às comunidades transplantadas. Sobre ‘rádios étnicas’, ver Leal (2007).

[4] Ver Rabelo, 2003.

[5] Babha, 1998; 1994; 1993.

[6] Sobre o conceito de comunidade, ver Ribeiro, 2004.

[7] Ver Motta, 2005a.

[8] Sobre ‘ história do presente’, ver Darnton (2004) e também Motta, 2005b.

[9] Miguel, 2001.

[10] O conceito de ‘situação de fala ideal’ postulado por Habermas (1984) não dá margem para a desigualdade nos turnos de fala e não dá a devida dimensão à opressão e manipulação existentes no espaço discursivo público.

[11] OIM, 2003.

[12] Castro, 2007; e Reis, 2006.

[13] Entre outros, Hasse,2007.

[14] Sobre a força emigratória, meu raciocício acompanha os estudos feitos pela socióloga Saphira Ammann e pelo economista Paul Ammann com imigrantes brasileiros na Suíça. (Ver Ammann e Ammann, 2006).

[15] Ammann e Ammann, 2006.

[16] Gaspari, 2002.

[17] Werneck, 2006.

[18] Meihy, 2004.

[19] Werneck, 2004: 177.

[20] Conforme se pode constatar pelo relato pungente das dificuldades e vexames sofridos por um migrante paraibano na rota Guatemala-México-Texas publicado pelo Brazilian Times, em 19/02/2008, a travessia dos migrantes pelo território mexicano não é nada agradável. Ainda assim, há quem faça dela um motivo para turismo. É o caso do Parque EcoAAlberto, situado na Rodovia El Alberto-Cantinela, a 8 km de Ixmiquilpan, Hidalgo, México. Com 1600 hectares, o parque oferece uma caminhada noturna por um caminho indicado por sujeitos com os rostos encobertos que gritam para os participantes se apressarem e não fazerem barulho, evitando chamar atenção da polícia de fronteira. A justificativa da empreitada – que custa USS$100, aos turistas - é que a experiência pode fazer com que eles “conheçam um outro México” e que “reflitam sobre os problemas da imigração ilegal” (O Globo, Revista Boa Viagem, 6/3/2008, p. 24)

[21] Marinucci e Milesi, 2006.

[22] O fenômeno da transferência da atividade doméstico-familiar entre mulheres também ocorre internamente no Brasil, onde mulheres vindas de áreas empobrecidas por anos de desgoverno político e caos econômico fogem da miséria para se empregar em casas de família.

[23] De acordo com a coordenadora organização ACOGE, Eva Martínez Ambite, cerca de 80% das mulheres que emigram para a Espanha para exercer a prostituição nunca a praticaram antes. Estas mulheres são ‘invisíveis’ porque, no momento em que chegam ao aeroporto, seus passaportes são confiscados pelas máfias que as transportaram. (, acesso em 14/03/2008). O diário eletrônico Águilas Notícias, publicado por chilenos no Canadá, publicou um artigo que dá conta de que, de acordo com a ONU, o sexo e o proxenetismo são hoje a terceira ‘indústria ilegal’ do mundo depois do tráfico de armas e o de drogas (, em 2/2/2007).

[24] Generalizando e talvez simplificando, Ehrenreich e Hoschchild (2004:4) lembram que, no início do imperialismo, os países do norte extraíram recursos naturais e produtos agrícolas (borracha, metais, açúcar, etc.) dos países que eles colonizaram ao sul do globo. Hoje - ainda dependendo do trabalho agrícola e industrial dos países ‘pobres’ - os então colonizadores, agora chamados de ‘ricos’, extraem “algo que é mais difícil de medir e quantificar, alguma coisa que pode parecer amor”.

[25] SERPRO, 2007.

[26] MER, 2007.

[27] De acordo com Sakurai (1993:20), a Convenção Pan-americana Nikkey, realizada na cidade de São Paulo em 1985, adotou o termo ‘nikkey’ para todos os descendentes de japoneses nas Américas. Sobre a terminologia referente à etnicidade nipo-brasileira, ver Takano (2002).

[28] Adams, 1931, p. 214-5 (tradução nossa)

[29] Margolis, 2003.

[30] No Estado de Massachusetts, há três cidades com comunidades brasileiras bem sedimentadas: Boston, Sommerville e Framingham.

[31] Cunha, 2007b.

[32] Sobre ‘latinos’ como identidade social, ver, entre outros, Zentella (1997; 1981), Cunha (2007a; 2003) e também Santiago (1994).

[33] Em depoimento ao historiador José Carlos Sebe Meihy, o desenhista gráfico Gutemberg Moreira explicou que o termo ‘brasuca’ foi criado na junção das palavras ‘brasileiro’ e ‘carioca’, que deu ‘brasoca’. Assim o chamavam os companheiros de pelada de futebol no Central Park nos anos 1970. Com o tempo a palavra ‘brasuca’, como corruptela de ‘brasoca’, passou a designar os brasileiros que moravam em Nova York e, logo, todos os brasileiros residentes nos Estados Unidos (Meihy , 2004).

[34] A idéia da tipificação ‘love migrant’ surgiu-me após a leitura do artigo ’Migrações amorosas’ da jornalista Zélia Leal (1998). Sobre isso ver Cunha (2007b) e Cunha (2004).

[35] Ver os estudos de Martes,1999; Ribeiro, 1999; Sales, 1999; Meihy, 2004.

[36] Gumperz, 1982.

[37] Rabelo,2003.

[38] Sobre o perfil dos imigrantes brasileiros nos Estados Unidos, ver o estudo de Izabela Araújo, Faculdade de Comunicação, Universidade de Brasília, 2007 (mimeo).

[39] Ver, entre outros, os estudos sobre bilingüismo de Grosjean, 1982; Hakuta, 1986; Romaine, 1991; Hoffman, 1991; e Zentella, 1997.

[40] Motta, 2006.

[41] Para melhor entender a relação entre tempo cósmico e tempo vivido, ver a teoria da ação de Paul Riccoeur (1995/6).

[42] Sayad, 1998:45.

[43] Motta, 2005: 68.

[44] O Brazilian Times aparece entre os doze “jornais da comunidade” listados na página do Consulado do Brasil em Nova York ( ).

[45] Analisando o jornalismo e a produção de conteúdos na internet, Leal Adghirni (2002) toma emprestado de Alain Accardo o termo ‘journaliste précaire’ para designar o profissional sem formação acadêmica que, muitas vezes, é apenas um produtor de conteúdos inseridos em rede. O termo, que tem conotação negativa, não dá conta de nossa idéia de espontaneidade, um movimento de dentro para fora. A formação acadêmica é, antes, um movimento contrário, de fora para dentro.

[46] Lair Ribeiro, que escreve sobre positivismo de São Paulo, e Regina Costa, que faz uma coluna de terapia holística a partir do Rio de Janeiro, são dois colaboradores do Brazilian Times no Brasil.

[47] Sales, 1999.

[48] Correspondência eletrônica datada de 24/10/2007.

[49] Sales, op. cit.

[50] Tonnies, 1973.

[51] Sobre ‘análise de incidentes’, ver Darnton, 2004; e Motta, 2005b.

[52] Conforme noticiado largamente pela imprensa, houve uma discrepância nos números apontados pelo Banco Mundial e os que foram indicados pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Este último diz ser US$ 3,5 bilhões o valor total de remessas feitas por brasileiros do exterior para o Brasil em 2005. O valor significa US$ 800 milhões (R$ 1,7 bilhão) a mais que no ano anterior. Informação disponível em (), acesso em 14/9/2007.

[53] Cristóvam Buarque (1993: 72) diz que a apartação social no Brasil é tamanha que saímos da desigualdade e entramos na diferença. “Os brasileiros da elite já não tratam os brasileiros pobres como desiguais, mas como diferentes. Pelo físico, pela roupa, pelos dentes, pela cultura, pela educação, pela linguagem, um brasileiro rico ou de classe média é mais diferente de um brasileiro pobre do que de um europeu”.

[54] Elias e Scotson, 2000: 20. Ver ainda Elias, 1956.

[55] Ver nota 26.

[56] Grande parte da programação da rádio WSRO – AM 650, que se anuncia como “a primeira e única estação de rádio brasileira 24 horas no ar”, é religiosa e veicula a pregação de igrejas que, numericamente falando, não são das mais expressivas no Brasil, como a Assembléia de Deus Jeová Nissi; Igreja Adventistal do Sétimo Dia; New Life Presbyterian Community; e Brazilian Baptist Church.

[57] Apud Meihy, 200

[58] Nos estudos de aquisição de outra língua, a introdução do conceito de anomia é feita por Wallace Lambert (1967) que o toma emprestado da obra de Émile Durkheim. O sociólogo francês, que originalmente cunhou o termo em uma tipificação do suicídio, define anomia como um estado onde existe uma fraca regulação social entre as normas da sociedade e o indivíduo, o que o deixa sem saber como agir. No estado de anomia, o indivíduo não vê correspondência entre os seus objetivos de vida e as normas sociais e leis que governam a sociedade, por isso, em muitos casos, o suicídio surge como uma alternativa (ver Durkheim, 1985).

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