O discurso do Jornal O Globo e a construção do “Sujeito 174”



II Encontro Nacional da Rede Alfredo de Carvalho

Florianópolis, de 15 a 17 de abril de 2004

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GT História do Jornalismo

Coordenação: Prof. Dra. Marialva Barbosa (UFF)

O discurso do Jornal O Globo e a construção do “Sujeito 174”

Danielle Ramos Brasiliense[1]

Reconhecendo que a linguagem tem grande interferência no desenvolvimento do sujeito na sociedade a partir de estudos sobre análise crítica do discurso (Semiologia dos Discursos Sociais), este trabalho pretende analisar a relação entre a produção de discurso e construção de identidades contemporâneas em um espaço social privilegiado da sociedade que é a imprensa. Buscou-se estudar o uso do discurso, a maneira como os jornais traduzem as contradições da realidade para seus leitores e principalmente como a mídia gerencia e reproduz o senso comum.

Para começar esta pesquisa, escolhi o caso do seqüestro do ônibus 174, acontecido no dia 12 de junho de 2000 no Rio. Trata-se de um caso paradigmático para se compreender o processo histórico acerca da construção midiática, em especial da grande imprensa carioca, sobre a realidade cotidiana de menores e adolescentes infratores no Rio de Janeiro. Sendo assim, estas reflexões fazem parte de um corpo de pesquisa maior, que pretende conjugar as dimensões da História da Comunicação, Estudos de Jornalismo e Análise de Discursos.

Esta escolha se deu também pelo fato de ser um episódio de violência que gerou muita polêmica, levando inclusive à produção de um filme documentário e principalmente por ser um acontecimento exemplar em contradições, onde a ação do Estado ficou patente. Sendo assim, priorizei a grande imprensa do Rio de Janeiro, focando o jornal O Globo, um dos maiores meios de informação nacional e parte do grupo de comunicação com maior audiência no país, as Organizações Globo.

Proponho também voltar-me principalmente para uma reflexão a respeito do senso comum, como parte de um conjunto de práticas herdadas, como crenças e juízos habituais previamente construídos.[2] O senso comum pode ser visto como sentidos construídos pelos homens de acordo com o mundo em que vivem, pois assim como a ciência tem suas bases de comprovação teórica, os argumentos do senso comum baseiam-se na experiência de vida cotidiana, muitas vezes se tornando uma simplificação na forma de comunicar, de explicar as teorias mais complexas do mundo (leis da física, por exemplo), mas podendo ser considerado também um problema ou defeito no processo de desenvolvimento do discurso, ou melhor, teorias sujeitas à formação de estereótipos e juízos pré-conceituados, produção de valores e supertições que vão se afirmando no mundo através do discurso. O senso comum é praticamente uma rotina da vida cotidiana e o que é problemático para esta realidade é fugir dela, pois isto significa viver uma nova realidade, quebrar paradigmas e ao mesmo tempo olhar para o outro, e este é um dos princípios de transição e construção da realidade.

Os meios de comunicação são responsáveis por afirmar e reafirmar determinados valores no mundo hoje e têm papel central, portanto, na dinâmica do senso comum. As técnicas de redação jornalísticas são, em geral, baseadas na idéia de objetividade e neutralidade. É necessário perceber, então, como as contradições do real são apresentadas pelo jornal O Globo. De que forma O Globo posiciona os sujeitos? E como foi construído o caso do ônibus 174 por esta mídia?

Segundo Mikhail Bakhtin, todo signo tem significados criados pelo que lhe é exterior, e se desenvolve socialmente através da linguagem que é geradora de mudança. Dependendo do contexto social, uma palavra aparentemente neutra pode ganhar valores diferentes e mudar a história de um sujeito na sociedade. No caso do ônibus 174, como Sandro Nascimento, vítima da chacina na Candelária em 1993, é tratado em 2000 pela imprensa após seqüestrar um ônibus? Que valores foram atribuídos a este sujeito? E de que forma este jornal gerenciou o senso comum?

O “Sujeito 174” é apresentado nesta pesquisa como uma categoria analítica que toma como referência a construção feita pela imprensa do jovem Sandro Nascimento, que tentou assaltar o veículo, quando este fazia o percurso Gávea – Central, e ao ser abordado pela polícia no meio do caminho, fez refém dez passageiros durante seis horas. Sandro foi uma das vítimas sobreviventes da chacina da Candelária em 1993, um jovem que sonhava com a fama e que de repente se transforma em um grande “ator social” no espetáculo da mídia. A ética, no momento em que os fatos são narrados, deve permanecer nos jornais, então, é necessário estudar e analisar a forma como O Globo posiciona o sujeito, mapear os clichês e perceber se a realidade é dita ou se o senso comum é apenas reproduzido em forma de espetáculo, ou até mesmo como atração para venda das notícias.

1. Algumas reflexões conceituais

Vejamos agora como os valores, em meio a uma diversidade cultural e a partir da prática dos discursos, são construídos, segundo Bakhtin. E para isso é necessário refletir primeiro sobre signos e ideologias. Em seu livro Marxismo e Filosofia da Linguagem, Bakhtin diz que “sem signo não existe ideologia”[3] pois todo signo possui um significado construído pelo que é exterior a ele. O signo só se desenvolve socialmente onde, através da linguagem e contradição, existe contínua transformação. Muitas palavras, por exemplo, já foram neutras no nosso vocabulário, com significação simples e direta, até o momento que em certo contexto social ela passa a ter outros valores. Toda matéria natural, de consumo ou tecnológica pode se tornar signo a partir do momento que é expressa ideologicamente e esta pode ser encontrada na Comunicação Social. Comunicar é tornar comum e isto só acontece socialmente. A palavra é a maneira mais nítida de se perceber o signo e ao mesmo tempo é através de um conjunto delas que ele é criado, por isso é colocada em primeiro plano no estudo das ideologias.

Bakhtin criou a teoria da polifonia,[4] ou um conjunto de vozes do discurso, contendo o dialogismo como orquestra destas vozes ou forma como estas se ajustam no texto, se constituindo como um elo da cadeia verbal de discursos. Para Bakhtin, uma mensagem está sempre ligada à outra mensagem, o que pode ser classificado como um tipo de relação de herança da fala.

A polifonia é esta variedade de vozes dentro de um texto, em contradição transformando-o em diálogo. Todo discurso sempre está relacionado a outro discurso, como por exemplo, textos de livros, narrativos ou não. Os valores são sempre diversos, desde a história que alguém contou à maneira como ela é reconhecida e emitida por uma segunda pessoa, ou o que pode ser priorizado por princípios que alguém ensinou, que aprendeu de outro sujeito e que este outro ouviu falar de alguém. Nem sempre é conhecida dos autores a existência em seu texto de outras vozes, estas podem estar muitas vezes explícitas em citações ou referências, mas também se manter ocultas como, por exemplo, o que foi dito pela mãe ou pai quando se é pequeno. Qualquer discurso sempre estará, desta forma, impregnado pelas vozes de outros discursos com os quais ele dialoga. Com relação a estes enunciados que antecedem, Bakhtin diz que “o locutor não é um Adão blíblico, perante objeto virgem”.[5] O dialogismo é o que faz essas vozes interagirem no interior do texto, gerando significados e até mesmo novos valores. Assim podemos notar também a importância da visão contraditória de cada um, pois um sujeito nunca pode ocupar o mesmo lugar no espaço que outro e então para que a comunicação seja completa é necessária a dependência um do outro. Com a complementação dos dois egos, é gerada a essência do diálogo.

“Se a cultura é polifônica então, ela é arena, território de conflito e luta. O sentido nunca se fecha, esse é um princípio fundamental da filosofia bakhitiniana. A hegemonia nunca é dada a priori, é cotidianamente construída, deslocada”.[6]

A memória faz parte da construção do pensamento dos sujeitos e é de fato importante na formação da dialética. Esta interferência da memória no diálogo cria novos valores e propõe novas reflexões a respeito do mundo e do senso comum.

“Desta maneira a linguagem marca as coordenadas de minha vida na sociedade e enche esta vida de objetos dotados de significação”, afirmam Berger e Luckman[7] ao relacionar a linguagem com a realidade da vida cotidiana. Assim, como mostra Barthes, os sociólogos também falam de objetividade da linguagem e efeitos coercitivos que ela exerce sobre os indivíduos. Embora as regras de linguagem não possam ser usadas em todas as línguas, a linguagem é capaz de fazer transitar as experiências da vida cotidiana através do simbólico e pelo dialogismo. A linguagem constrói espaços de significação e é aqui que entram a imaginação e as noções do senso comum.

Entre esses espaços de significação também existem as “propriedades das palavras”, ou da fala a que se refere Barthes, é um exemplo do uso do poder a partir da linguagem. As estratégias retóricas concedem aos jornalistas (profissional referente neste trabalho) o domínio da palavra, o poder de influenciar o pensamento da sociedade através dos veículos de comunicação. A técnica retórica é adaptável à opinião do público, e principalmente ao senso comum, o que pode ser relacionado na técnica retórica com o verossímil, tudo aquilo que na vida cotidiana da cultura de massa é julgado possível, apropriado ou até mesmo correto. Em seu livro Aventura Semiológica, Roland Barthes faz o seguinte comentário:

“Quantos filmes, folhetins e reportagens comerciais poderiam ter por divisa a regra aristotélica; Mais vale um verossímil impossível que um possível inverossímil; mais vale contar aquilo que o público julga possível, mesmo sendo impossível cientificamente, que contar o que realmente é possível se este possível é rejeitado pela censura coletiva da opinião pública”.[8]

A verossimilhança é a aparência da verdade e os argumentos retóricos verossímeis podem ser reproduções de conceitos, crenças e práticas formadas pela própria sociedade. O que o repórter informa nos textos dos jornais, muitas vezes é o que o receptor considera justo independentemente de ser a verdade ou uma aparência, são argumentos consensuais, com aceitação universal sem necessidade de comprovação imediata. Como afirma Milton José Pinto: “Como a arte retórica argumenta dentro do senso comum, visando a criação de verossimilhança, o crédito do orador junto ao público é um favor decisivo, pois a confiança do público abre caminho para a persuasão”.[9]

No campo do jornalismo se constrói a credibilidade, a chamada "autoridade da fala", como exemplifica Milton Pinto, ou o "poder simbólico", como elaborou Pierre Bourdieu: "O que faz o poder das palavras e das palavras de ordem, poder de manter a ordem ou de a subverter, é a crença na legitimidade das palavras e daqueles que as pronuncia, crença cuja produção não é da competência das palavras”.[10] Os jornalistas conceituados são aqueles que trabalham nos grandes jornais ou que são conhecidos por algum furo jornalístico, por uma matéria espetacular ou de grande importância nacional. O que expressa a verdade não são exatamente suas palavras, mas a autoridade (simbólica) que ele possui.

É importante ressaltar também o "não dito" usado pelos jornais, que pode ser considerado entimema, uma estratégia retórica ou o pressuposto. O repórter narra o fato e estrategicamente deixa o leitor tirar suas conclusões. Isso acontece muito em casos policiais, por exemplo, ao relatar um crime em família, o repórter enfatiza que o filho sentira inveja do amor do pai pelo seu irmão e propositalmente na construção do texto deixa o leitor concluir que um irmão matou o outro. Isso acontece quando os jornais por questões particulares (matéria mal apurada, ou por submissão ao seu anunciante) não assumem totalmente a responsabilidade no relato dos fatos, deixando reticências indiretas para o público. Muitas vezes os próprios jornalistas são influenciados pelo próprio ideário da profissão, tendo a objetividade como um valor importante em sua carreira.

O objetivo da retórica, então, de um modo geral, é provocar e aumentar uma intimidade do público com o emissor da mensagem. Quanto ao convencimento, basta para alguns fazer relatos de experiências pessoais em seus discursos, mencionar fatos antigos em comparação ou enumerar algumas provas que confirmem seus argumentos. Assim, a idealização do receptor da mensagem também influencia o texto, pois imaginando um determinado leitor o emissor também vai adequar seu discurso da maneira que ele acha coerente, ou seja, sua argumentação será baseada nos conceitos que são pertinentes para ele e para aquele público alvo.

“Numa perspectiva assim, a argumentação, tal como a concebemos, já não tem razão de ser. Os fatos, as verdades ou, pelo menos as verossimilhanças submetidas ao cálculo das probabilidades triunfam por si sós. Quem os apresenta não desempenha nenhum papel essencial, suas demonstrações são intemporais e não há motivos para distinguir os auditórios a que se dirige, uma vez que se presume que todos se inclinam diante do que é objetivamente válido”.[11]

As palavras de Chaim Perelman, acima, já deixam clara a significância do fato, da verdade e do verossímil,[12] o que para a técnica retórica é fundamental, não dando tanta importância à maneira com que a “platéia” será conduzida, mas sim valorizando o que o público conhece como verdade e justiça. Estes são os argumentos consensuais, sem necessidade de comprovação, usa-se apenas o que é comum a todos, mesmo sendo inverdades. Sendo assim, podemos refletir sobre os saberes do cotidiano, o senso comum.

Este sentido de vida construído pelos homens, de acordo com sua cultura, pode ser chamado de senso comum. O senso comum nasce a partir de reflexões sobre experiências vividas. Seus argumentos são baseados na experiência da vida cotidiana, no que é empírico, diferente da religião que tem por base a revelação divina e da ciência com comprovações mais experimentadas, pesquisadas.

As supertições e os valores criados pela sociedade vão se apossando dos territórios do mundo através do discurso. Mas o senso comum também pode ser visto como uma simplificação na forma de explicar as teorias mais complexas do mundo, ao mesmo tempo em que pode gerar uma certa facilidade na comunicação. Maurício Duarte esclarece melhor, em sua tese, essa significação do senso comum, baseado nos estudos de Gramsci, que vê o senso comum como uma lógica da comunicação cotidiana. Para Duarte, o senso comum não é negativo, ilógico ou irracional, quando possibilita a formação de consenso. “Assim não se trata simplesmente de uma lógica enganadora. Ela permite uma agilização mental, fundada na liderança moral e intelectual de uma instituição ou grupo social”, afirma Duarte. Além disso, podemos também destacar aqui a metonímia, que, tomando a parte pelo todo, gera consentimento nos discursos.[13]

Então, o inquestionável, a realidade única e consensual, é que pode ser considerado um problema no processo de construção do discurso, quando estas teorias formam estereótipos e juízos pré–conceituados. Estas produções de valores e supertições vão se afirmando no mundo através do discurso, por ser a realidade válida para a sociedade aquela que indica a verdade e, por este motivo, por estar em situação de privilégio. E como afirmam Berger e Luckman, fica impossível fazer de conta que ela não existe e muito difícil diminuí-la, principalmente, com a forma que a mídia, principal semantizadora da nossa sociedade, conduz seu discurso usando a técnica retórica. Sendo assim, é impossível compreender a vida cotidiana sem entender a linguagem.

Um dos maiores problemas que enfrenta a rotina da realidade do senso comum é a naturalização, é não conseguir ir além, isto significa não viver uma nova realidade, olhar com os olhos alheios, quebrar paradigmas, o que – ao contrário – é princípio fundamental na antropologia e nas ciências sociais, a percepção, transição e construção de novas realidades. E isto é motivado, na maioria das vezes, por quem exerce o poder, quem domina o discurso.

Sendo assim, a linguagem é grande contribuinte no desenvolvimento do senso comum, um instrumento que dá sentido, significação e transformações diversas ao mundo. É onde a realidade do cotidiano se materializa. Os textos jornalísticos não são explicitamente cobertos de ideologias, apenas mostram ao seu leitor o caminho para uma interpretação ideológica, na forma de naturalização. Esta é a essência da ideologia. Fairclough afirma que a naturalização é a mais formidável arma do poder e conseqüentemente um foco importante de luta.[14] A ideologia vira senso comum, quando o discurso é estereotipado e naturalizado, isso revela o efeito de poder que este representa em um texto. Assim, o senso comum ideológico através da linguagem interfere na construção de identidades dos sujeitos sociais.

Norman Fairclough aplica o conceito de “rotinas interacionais”, ao perceber as formas como acontece a interação entre os sujeitos no discurso e a forma como são separados ou misturados no texto, concluindo que a naturalização dos fatos contribui para uma afirmação da imagem dos sujeitos sociais a partir do senso comum.

“A prática discursiva é constitutiva tanto de maneira convencional como criativa: contribui para reproduzir a sociedade (identidades sociais, relações sociais, sistemas de conhecimento e crença) como é, mas também contribui para transforma-la”.[15]

Neste sentido, a naturalização, juntamente com a falta de aceitação do diferente e daquilo que é contraditório, como diz Geertz,[16] é mais do que uma surpresa empírica, é um desafio cultural, no mundo onde o aceitável é o sexo masculino e o feminino, por exemplo, e de repente aparece a intersexualidade, os filhos de Hermes e Afrodite. A voz da maldição, da feitiçaria, é imediatamente usada para compreensão da nova realidade, para não enfrentar e superar a contradição.

“A imersão num determinado cotidiano pode nos cegar justamente por causa de sua familiaridade. Para que alguma coisa possa se tornar objeto de pesquisa, é preciso torna-la estranha de início para poder retraduzi-la no final: do familiar ao estranho e vice-versa, sucessivamente.”[17]

Neste sentido, o olhar do jornalista deve ser o mesmo do pesquisador, que a todo o momento é transformado pelo outro, seu olhar é alterado. A alteridade é imprescindível na construção do discurso, o olhar de estranheza como aprendemos na Antropologia Cultural, concebe à dialética o seu mais puro objetivo, em meio à contradição fazer com que as pessoas tirem suas próprias conclusões a respeito dos fatos. Pois, como já vimos, a naturalização rompe com o procedimento crítico.

2. A construção da imprensa sobre o “Sujeito 174”

Depois de termos discutido sobre realidade, linguagem, contradição e senso comum, podemos começar a tratar da questão da construção do discurso sobre violência e suas marcas em nossa cultura hoje, lembrando que o objeto deste trabalho, o seqüestro do ônibus 174, está totalmente ligado a este assunto. E como já vimos, a prática discursiva contribui para transformação e reprodução dos elementos sociais (identidades, crenças, relações de poder). Da mesma forma, contribui também para a construção e formação da violência urbana.

A violência pode ser entendida como qualquer tipo de constrangimento físico ou moral. Muniz Sodré (1992) fala sobre atos de violência e estado de violência. Os atos de violência são os seqüestros, assaltos, assassinatos e tudo que estiver relacionado à práticas de violência. Sodré chama de estado de violência, a violência invisível e institucional, provocada pelo serviço público. Para ele, a violência social, pode ser chamada de direta, quando existe exercício imediato de força física, e indireta quando é latente, ou seja, pressões ou ameaças no campo econômico, moral, psicológico ou político. Mesmo sendo a violência considerada plural, a idéia e o conceito de força são o que prevalece, na maioria das vezes, para explicar a violência.

Dentro do contexto contemporâneo, essa questão só pode ser entendida na sua relação com os meios de comunicação de massa. Os meios de comunicação se preocupam com discursos que chamam a atenção de seu público como forma de espetáculo, reforçando e reproduzindo significados da realidade da vida cotidiana. A violência tratada como fato jornalístico, nos últimos anos (principalmente pelos jornais dito populares), é sobretudo aquela que contém um nível de crueldade bastante significativo ou a que causa escândalo público, como, por exemplo, a construção de uma guerra de poder entre o tráfico de drogas e o Estado na cidade do Rio de Janeiro.

A fome, o desemprego, a pobreza, a desigualdade social, a corrupção de autoridades (inclusive policiais), a facilidade na aquisição de armas de fogo, a frustração de jovens e adolescentes (maioria na vida do crime, hoje), a existência de territórios, como morros e favelas, são justificativas comuns dadas pela sociedade para explicar a violência urbana. Mas são essencialmente categorias, generalizadas de certa maneira pelos jornais, que reproduzem e naturalizam a violência como uma "revolta dos excluídos". Não podemos esquecer que a violência é muito mais que rebeldia. É uma linguagem, um instrumento usado para se comunicar, uma batalha moral ou luta por direitos humanos.

"Nos meios de comunicação de massa, dispositivos centrais de produção das aparências da modernidade contemporânea, os cidadãos "discrimináveis" são geralmente apresentados em filmes, programas de entretenimento ou de informação como vilões ou cidadãos de segunda classe (em papéis que representam atividades socialmente inferiorizadas) ou são pura e simplesmente excluídos. Em outras palavras, numa cultura que vive cada vez mais de narrativas e representações tornadas visíveis num espaço publicitário e tecnológico, a visibilidade do negro e essencialmente negativa."[18]

Os estereótipos criados a respeito da violência em nosso país talvez tenham deixado esse assunto banalizado e, junto com ele, aquilo que chamamos de bandido, marginal, favelado, pobre ou negro. Isto acontece justamente porque o discurso tem uma relação intensa com a realidade, construindo e transformando os valores e os significados. Além disso, os leitores dos jornais não fazem uma leitura imaginária, como nos romances ou nas estórias e contos de fadas. O público do jornal lê o "fato", ou melhor, uma tradução da realidade em que vive. Sendo assim, a naturalização dos valores acontece e os sujeitos, os crimes e todos os atos de violência (na forma sensacionalista) tornam-se modelos do senso comum. Como disse Antônio Serra (1986): "A vida "real" do leitor se insinua pelas páginas do jornal e é ela que acaba sendo noticiada; é o texto que se acaba impondo, não só como intérprete da vida, mas enquanto espelho da própria vida do leitor”.[19]

Muniz Sodré fala do sistema imagístico[20] produzido pela mídia que, ao usar o espetáculo, distrai o público, constrói identificações sociais e simula padrões de conduta. E diz que isso não é produção de conteúdo e conhecimento, mas sim "gestão de uma socialidade artificiosa, encenada num novo tipo de espaço público, cuja forma principal é a do espetáculo”. As notícias de violência prestam serviços de alerta ao Estado, causam debate público e, além disso, são uma denúncia nacional privilegiada, por acompanhar de perto os fatos e reproduzi-los. Mas a questão é: como esses fatos são traduzidos? E onde são dadas as maiores ênfases? No senso comum? Nos direitos humanos? O que é silenciado? A forma como são feitas as divulgações pelos jornais no espaço público também muitas vezes é uma forma de violência contra a sociedade. A própria maneira de narrar os fatos, mesmo que supostamente com objetividade, agride determinadas culturas e classes.

"A interposição do relato da mídia entre o acontecimento e seus modos próprios de se reportar à violência física ou cotidiana que o testemunha cria um circuito de produção de sentidos. Com isso, tais discursos, antes constituídos pela natureza do fenômeno narrado e pelas características do meio comunicativo, tornam-se constitutivos à medida que passam a sustentar e configurar opiniões, julgamentos, valores e práticas adotadas a partir e/ou com referência a estes relatos sobre a violência."[21]

Neste sentido, os discursos produzidos pelos jornais a respeito da violência têm conseqüências nas práticas sociais, políticas, culturais e até mesmo econômicas. Os moradores da favela (como pude acompanhar de perto numa parte da comunidade de Manguinhos, no Rio de Janeiro), por exemplo, querem mostrar o tempo todo que o local onde moram é um lugar tranqüilo, onde existem pessoas justas e trabalhadoras. Afirmam suas identidades e tentam a todo momento desconstruir o que é dito pela mídia a respeito de suas vidas e, principalmente, do local onde moram. Não negam o perigo da violência policial e do tráfico de drogas, mas se defendem dos estereótipos e preconceitos gerados pelo senso comum, mesmo que o assunto não seja violência.

Esta produção de significados não é feita por uma pessoa. Não podemos esquecer também a intertextualidade nos discursos. Os jornalistas, antes de produzirem as matérias, consultam fontes que fazem discursos diversos sobre o assunto a ser tratado. Essas fontes podem estar ligadas a ideologias religiosas ou de caráter jurídico, militar e outros. Isso influencia o texto que será publicado e, neste sentido, a polifonia também contribui para a formação dos valores. É claro que isto não justifica o modo espetacular dos jornais traduzirem os fatos, mas vale a pena pensar nesta realidade. Bakhtin fala sobre a polifonia não só por causa da multiplicidade das vozes, mas também por causa da orquestração das vozes que juntas revelam novos ou diversos significados. Como diz a Elizabeth Rondeli: "o que se produz sobre a violência são representações múltiplas, discursos polifônicos, por vezes contraditórios, mas coerentes com requisitos institucionais diversos”.[22] Não se trata nem mesmo de harmonia, pois a contradição existe, mas está relacionado ao produto, resultado da orquestração que é muitas vezes espetacular.

A violência não deixa de ser um instrumento de poder, pois sabemos que quanto mais parecida com uma narração de filmes de ação americano, mais a notícia é vendida. Não há como negar que existe um comprometimento das empresas de comunicação com a venda de seu produto e também com seus anunciantes. Sendo assim, a cena de violência relatada, em geral, será aquela que venderá mais. Por isso também, quanto mais espetacular, melhor.

Roland Brthes chama de fait divers[23] as notícias que privilegiam o entretenimento. É a informação geral de interesse público transformada em drama, ou melhor, uma forma narrativa que seja chocante, escandalosa, ou que esteja próxima do ineditismo. O objetivo da imprensa ao se apropriar do fait divers foi entreter e divertir a sociedade de massa. A aplicação desta categoria na mídia tomou grande proporção nos Estados Unidos com os editoriais do jornal New York Sun, com casos de crimes, assassinatos e outras notícias que apelavam para o fantástico.[24]

No caso da violência, as matérias com formas mais agressivas e ao mesmo tempo muito repetidas são reforçadas na mídia, segundo a lógica do fait divers. A fantasia e a naturalização das notícias também fazem o público digerir com mais facilidade a realidade do seu cotidiano. E, em contrapartida, alguns sujeitos se transformam em inimigos da sociedade, os suspeitos e os desejáveis de morte, assim como Sandro Nascimento, principal personagem no caso do ônibus 174.

Sandro Nascimento, Mancha, Alex e Sérgio são as diversas identidades atribuídas ao seqüestrador, também chamado de bandido, ex-menino de rua, assaltante ou marginal. Ele foi assim classificado ao paralisar a imprensa e a polícia do Rio de Janeiro por seis horas, no dia 12 de junho de 2000. Podemos, a partir de agora, falar especificamente do Sujeito 174, categoria que criei para fazer relação do Sandro com os estereótipos criados pela sociedade e pela imprensa. O Sujeito 174 é uma referência ao elemento cristalizado que O Globo, ao chamá-lo de "bandido sanguinário e frio",[25] criou, anulando assim a pessoa (sujeito/indivíduo) Sandro Nascimento. Esta categoria servirá para perceber que quanto mais o Sandro é tipificado, maior o seu anonimato como sujeito social, aparecendo somente como um tipo, ou melhor, como resolvi chamar, Sujeito 174. De acordo com Berger e Luckmann (1985),[26] quanto mais anônimo for um sujeito, menor é o grau de interesse que desperta e menor a percepção da sua alteridade. Mas, antes de falar sobre o Sujeito 174 e explorar tudo o que já foi dito sobre discurso e violência, é preciso recapitular o fato do seqüestro.

O ônibus da linha 174 era, na época, um ônibus que fazia o percurso Gávea-Central, na cidade do Rio de Janeiro. Nele, entrou um rapaz que fez mais ou menos 10 passageiros reféns, no bairro do Jardim Botânico. O ônibus ficou no poder de "Sérgio", nome dado pelos policiais que faziam a negociação, por quase seis horas. O local estava tomado pela imprensa, por policiais e por pessoas que assistiam o jovem com uma arma na mão ameaçando tanto os reféns como as pessoas do lado de fora. Durante a negociação, foram libertadas algumas pessoas, como um estudante, um senhor e D. Damiana, que estava passando mal, devido a problemas no coração. Depois disso, o rapaz armado atirou na direção de uma das reféns, Janaína (na época, estudante de administração da PUC), que não morre, mas se finge de morta no chão do ônibus. Depois de horas de terror e encenação para as câmaras, Sandro resolveu descer do ônibus e levar junto, de escudo, Geisa Firmo. Enquanto os policiais tentavam render a refém, um especialista do BOPE, atirou na direção de Sandro, que disparou alguns tiros. No fim da confusão, Geisa morreu baleada na cabeça e Sandro, dentro do camburão da polícia, momentos depois também morre.

Ora, para além desse resumo, o que foi esse episódio de fato? Um emaranhado de contradições o preenche, isso é o que podemos afirmar. Mas o documentário "Ônibus 174”,[27] assistido por três vezes, me ajudou a pensar melhor sobre esse episódio e sobre o Sujeito 174, por conta dos depoimentos tanto sobre o Sandro, como também sobre a ação da polícia, sobre violência e sobre todo o fato em si. Desta forma, as observações que farei a seguir serão feitas a partir do que foi mostrado neste documentário, embora meu foco principal seja o discurso do jornal O Globo, que analisarei no próximo capítulo.

O caso do ônibus 174 teve como personagem principal uma vítima de violência que, aos seis anos, presenciou a morte de sua mãe, que grávida foi assassinada á facadas. Sandro ficou marcado, não por causa deste episódio somente, mas por um conjunto de fatos que foram acontecendo no decorrer da história de sua vida. Depois da morte de sua mãe, foi morar com sua tia Jú, mas logo a trocou pelas ruas do Rio de Janeiro. Sendo assim, o Mancha (como era chamado na rua) se tornou mais um menino abandonado nas ruas, tragado pelas drogas e esperando a cada dia uma oportunidade para ser feliz. O que é importante deixar claro primeiramente é que o Sandro, fora de categorias ou identidade criadas pelo mundo (marginal, pivete, mendigo ou outro qualquer), buscava visibilidade e reconhecimento desesperadamente. Isto pelo menos é o que pode se deduzir de alguns depoimentos, reproduzidos no documentário, de pessoas que o conheceram.

Sandro Nascimento, como enfatizaram alguns jornais na época do seqüestro, não tinha identidade, ou melhor, era um sujeito como muitos outros, invisível, naturalizado por uma sociedade acostumada a conviver com meninos morando nas ruas, assaltantes e drogados, ou seja, adotados pela realidade da vida cotidiana. Neste contexto, e como mostra o documentário, Sandro queria ser visto e ouvido, e isso ia muito além dos seus objetivos em conquistar uma felicidade com a fama, como ele mesmo dizia para D. Elza, uma senhora que o acolheu num quarto de sua casa, a quem chamava de mãe de criação.

"... [Sandro] impôs sua visibilidade e reescreveu sua narrativa e através de uma estética de auto-invenção, ele recupera sua visibilidade.(...) Uma espécie de pacto fáustico.(...) Ele troca a vida pela pequena glória de ser reconhecido. (....) o espaço para mostrar que ele existia era mais fundamental do que sair vivo, as câmaras de TV importavam para ele."[28]

Sandro era sobrevivente da chacina da Candelária (um fato, é claro, de grande peso em suas falas no momento do seqüestro): "Brasil, se liga só, eu estava na Candelária, pergunta à tia Ivone", dizia ele diretamente para as câmaras. A Tia Ivone era a assistente social que Sandro conheceu na Candelária. Ele depositava sua confiança nela e, dois meses antes do seqüestro, havia lhe procurado pedindo emprego. Sandro reclamava, pois não via perspectiva de mudança. Tia Ivone ainda enfatiza, em seu depoimento, que com ela o nome dele sempre era Sandro, embora outras diversas identidades tenham surgido.

Sandro foi um adolescente com diversos registros nas delegacias e presídios da cidade. Um tempo depois do episódio da Candelária, ele foi detido na instituição de menores Padre Severino, por conta de um assalto num sinal, mas logo fugiu acompanhando uma rebelião. Quatro anos depois, foi preso novamente na XXVI DP, cujas celas eram conhecidas como “cofre” (hoje não funciona mais). A temperatura do local era no mínimo 50 graus. Os presos ficavam perturbados quando sabiam que iriam para este lugar, pois somariam 40 pessoas numa cela que era própria para cinco pessoas. Assim, era necessário fazer rodízio: uma hora um grupo ficava de pé, enquanto outro grupo sentava.

Pensar a violência é pensar em todas as suas categorias, como já foi dito, no começo deste capítulo. Neste caso, não podemos deixar de levar em consideração o contexto em que Sandro vivia. A violência esteve presente dentro de sua casa, na rua e nas prisões para onde foi levado com o objetivo de recuperação dos seus delitos. Depois que fugiu de casa, a violência o perseguiu na rua. Era comum presenciar crianças mortas por paralelepípedos que eram jogados nas suas cabeças. Nos centros de recuperação, a situação não era diferente. Sandro trazia, nas costas, marcas das várias agressões (inclusive de pisoteamentos) dos funcionários.

Na XXVI DP, os presidiários arrumaram um jeito e fugiram do "cofre" e Sandro foi junto. Os registros e depoimentos das pessoas que trabalhavam nestas instituições contam que Sandro nunca deu trabalho para eles e que ele não gostava de falar sobre sua situação social e justificava ter muitos problemas de cabeça. Logo depois da fuga, o rapaz pegou a barca do trajeto Rio-Niterói, ligou para sua tia Jú e pediu para que ela encontrasse com ele, pois precisava de um tênis novo. Disse que ia mudar de vida e ser conhecido no mundo inteiro.

Com o provável objetivo de assaltar o ônibus, o Sujeito 174 se vê encurralado pela polícia e rodeado por diversas câmaras fotográficas e de televisão, como nos filmes de ação americanos. Ele dizia: "Seu delegado, tá pensando que isso aqui é filme de ação?", "Aqui o bagulho é sério, não é filme de ação, não". Neste sentido, Sandro e todos que estavam fora e dentro do ônibus tinham noção do espetáculo. E, naquele momento, o sobrevivente da Candelária, o Sujeito 174 apareceu, ganhou lugar e visibilidade através das lentes objetivas e dos holofotes que o focalizavam.

O capitão Batista, que negociava com o "Sérgio" todo o tempo do episódio, diz que "ele estava a fim de aparecer e representar a peça dele". O ex-policial e sociólogo Rodrigo Pimentel explica: "a mídia traz confiança ao seqüestrador". Uma das vítimas, chamada Luana (estudante de comunicação, na época), declarou o seguinte: "Havia um diálogo paralelo entre o que estava acontecendo para as câmaras e o que estava acontecendo lá dentro.(...) tudo o que as pessoas têm que ver lá fora é o que ele precisa para conseguir o que quer." Essas frases confirmam a idéia de que as pessoas sabiam que havia um espetáculo e que a mídia era responsável por ele. A arma na mão do Sandro produzia medo, mas suas encenações e a ajuda de todos ali presentes fizeram muito mais do que uma simples arma. Embora a arma reafirmasse a existência humana de Sandro (na medida em que lhe dava potência e visibilidade), como muitos costumam dizer, naquele momento os flashes e os vídeos tomaram o lugar daquele revólver.

O momento que marca exatamente a consciência do espetáculo que o Sujeito 174 tinha é a hora em que ele simula a morte da refém Janaína. Ela própria conta que ele lhe disse: "Não vou atirar para matar, vou atirar e quero que todos gritem". Esta fala revela que Sandro assumia o lugar de um diretor que orientava as ações de todos na encenação. A menina estava coberta por um pano ajoelhada no chão do ônibus e ele atira do lado. Logo, todos começam a gritar. "Todos gritaram e eu também estava gritando, isso foi uma encenação", diz Janaína. Outro momento marcante também foi quando ele pegou a Luana pelos cabelos dizendo que iria matá-la e ela começou a gritar e chorar e ele, irritado, diz para ela parar de chorar, pois caso contrário ele a mataria de verdade e, então, ela lhe fez a seguinte pergunta: "mas você não quer que eu finja?". Sandro ficou desconcertado e sentou no banco do ônibus com as reféns.

A mais nervosa nesse episódio, além da D. Damiana que foi libertada no começo, era a Geisa Firmo. Os seus gritos de misericórdia e de pavor não comoveram os policiais e muito menos ao Sandro. Talvez irritado com a mentira que ela contou (disse que era filha da D. Damiana), ele tenha sido mais agressivo com ela e até lhe escolhido para sair de dentro do ônibus com ele. Ao final deste acontecimento, no momento em que Geisa está morta e Sandro é carregado para o camburão, todos gritavam por ele. A fama tinha se concretizado.

Uma frase do Rodrigo Pimentel fecha esta história: "como todo espetáculo, todos querem a morte do bandido no final". E o pós-morte dos dois (Geisa e Sandro) foram muito diferentes e significativos também. Geisa teve seu caixão acompanhado por várias pessoas que a conheciam, além de parentes, e também por aqueles que estavam no processo de luto pela paz na cidade do Rio de Janeiro. Já o Sujeito 174, só teve duas pessoas no seu enterro, sua mãe de criação e o coveiro. Nenhum outro parente apareceu naquele momento. Justificaram a ausência, colocando a culpa na imprensa, pois não queriam ser importunados.

Com base nos estudos de análise crítica do discurso, pude perceber neste trabalho a relação entre a produção de discurso e a construção de identidades feitas pela imprensa no caso do seqüestro do ônibus 174. Assim, concluo aqui previamente que a maneira de conduzir os discursos tem grande responsabilidade sobre a realidade, já que a linguagem não apenas reflete o mundo, mas também o constitui.

O Sujeito 174 é criado e incorporado como mais um ator social digno de ódio ou de pena. É destacado como um perigo e, ao mesmo tempo, como um alerta para a sociedade, que por conta de suas verdades, só o enxerga como uma ameaça. Através de um conjunto de construções retóricas, o Sujeito 174 chega ao espaço público com vários sentidos e ao mesmo tempo tipificado. E foi exatamente por isso que denominei Sandro Nascimento de Sujeito 174, para pensar na tipificação ou coisificação deste sujeito.

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[1] Jornalista, atuando como bolsista na pesquisa em Semiologia dos Discursos Sociais pela Fundação Osvaldo Cruz/ Departamento de Comunicação, coordenado pela Prof.ª Drª. Inesita Araújo, e cursando a Pós-Graduação em História do Brasil na UERJ.

[2] GEERTZ, Clifford. O Saber Local – O senso comum como um sistema cultural. Petrópolis, Vozes, 1997, p.112.

[3] BAKHTIN, Mikhail. Marxismo e Filosofia da Linguagem. São Paulo, Hucitec, 1979 p.32.

[4] Entende-se por polifonia a reunião de vozes ou instrumentos.

[5] RIBEIRO, Ana Paula Goulart. Bakhtin e o Conceito de Polifonia. ”. In: A História do seu tempo. Rio de Janeiro, dissertação de Mestrado em Comunicação/ UFRJ, 1995.

[6] Idem, p.35

[7] BERGER, Peter e LUCKMAN, Thomas. A Construção Social da Realidade. Petrópolis, Vozes, 2002, p.39.

[8] BARTHES, Rolando. A Aventura Semiológica. São Paulo, Perspectiva, 1989, p29.

[9] PINTO, Milton José. Comunicação e Discurso. Introdução à Análise do Discurso. São Paulo, Hacker Editores, 1999.

[10] BOURDIEU, Pierre, O Poder Simbólico. Rio de Janeiro, Ed. Bertrand Brasil, 1989, p.15.

[11] PERELMAN, Chaim. Tratado de Argumentação. São Paulo, Martins Fontes, 1996, p.51.

[12] O francês Philippe Breton, em seu livro "A argumentação na Comunicação", reforça as teorias de Chaim Perelman. Fala de apelos aos pressupostos comuns no discurso argumentativo e afirmação pela autoridade. Para ele "a opinião continua a ser uma realidade forte, que designa aquilo em que acreditamos, aquilo que guia nossas ações e que alimenta nossos pensamentos. O homem não é feito unicamente de opiniões, mas são estas opiniões que fazem um homem e sobretudo sua identidade social”. BRETON, Philippe, A argumentação na comunicação, São Paulo, EDUSC, 1999.

[13] DUARTE, Maurício. Cidadania Obstruída, jornais cariocas e a construção discursiva da violência no Rio. Tese de Doutorado em Comunicação. Rio de Janeiro, ECO/UFRJ, 2003, p.212

[14] FAIRCLOUG, Norman. FAIRCLOUGH, Norman. Discurso e mudança social. Brasília, Editora UNB, 2001, p. 105.

[15] Idem, p.92.

[16] GEERTZ, Clifford, op. cit., p. 123.

[17] AMORIM, Marília. O pesquisador e seu outro, Bakhtin nas ciências humanas. São Paulo, Musa Editora, 2001, p.26.

[18] SODRÉ, Muniz, O social irradiado: violência urbana neogrotesco e mídia. São Paulo,Cortez, 1992, p.114.

[19] SERRA, Antônio. O desvio nosso de cada dia. Rio de Janeiro, Dois Pontos Editora, 1986, p.26.

[20] SODRË, Muniz, op. cit. p.42..

[21] RONDELI, Elizabeth, “Imagens da violência e práticas discursivas”, IN: PEREIRA, Carlos Alberto Messeder et alii. (org.). Linguagens da Violência. Ed. Rocco, Rio de janeiro, 2000, p.152.

[22] Ibidem.p.155

[23] BARTHES, Roland, Crítica e verdade. São Paulo, Ed. Perspectiva, 1999, p. 57

[24] DEJAVITE, Fábia Angélica, “Jornalismo: identidades e discursos”, IN: Estudos de Jornalismo I. Campo Grande, INTERCOM, 2001, p.56.

[25] O GLOBO, 13 de junho de 2000, texto da manchete.

[26] BERGER e LUKMANN, op. cit., p.52.

[27] O documentário "O ônibus 174", dirigido por José Padilha, estreou nos cinemas no ano de 2002.

[28] Esta fala é do sociólogo Luiz Eduardo Soares, em uns de seus depoimentos no documentário.

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